3 de abril de 2008

Ensáio - A EA, o mainstream neoclássico e suas diferenças

Embora se fale muito, principalmente na internet, sobre a EA, pouco se conhece a natureza dessa escola e suas diferenças do mainstream neoclássico.


A escola neoclássica é uma corrente de pensamento com um grande numero de seguidores, na verdade a maioria dos economistas do planeta atualmente pertence num certo grau a essa escola de pensamento. Mas essa vasta escola na verdade não tem uma teoria unificada coerente com seus pressupostos básicos e só uma fração dos economistas dessa escola tem suas idéias totalmente assentadas sob uma base analítica verdadeiramente neoclássica. A base analítica da economia neoclássica é a idéia de que indivíduos maximizam utilidade. Ou seja, a idéia que cada individuo é confrontado com um sistema de meios limitados para atingir fins praticamente ilimitados. Nesse caso, o indivíduo escolhe de forma a maximizar a utilidade dada a restrição de meios que se coloca. Essa é a base de todo o pensamento neoclássico, tudo que está dentro das teorias neoclássicas (rigorosamente dentro do paradigma neoclássico) esta baseada nessa idéia.


Por exemplo, muitas teorias que são consideradas neoclássicas, como as teorias de concorrência imperfeita, as externalidades e os bens públicos não são realmente neoclássicas, se consideradas como teorias completas. Já que são teorias que violam diretamente o pressuposto de que indivíduos maximizam a utilidade. Nessas teorias temos como conclusão no caso das teorias de concorrências imperfeitas, que a empresa “maximizadora de lucros” cobrando preços uniformes, num caso de elasticidade imperfeita na demanda acaba por deixar de realizar transações mutuamente benéficas. Para realizar todas as transações mutuamente benéficas ela teria que discriminar preços ou os proprietários dos fatores de produção e os consumidores teriam que transacionar diretamente, ao invés da firma comprar dos proprietários dos fatores e vender para os consumidores, os consumidores e os proprietários dos fatores iriam se resolver sozinhos. Em ambos os casos, indivíduos maximizadores de utilidade iriam agir dessa maneira, não iriam simplesmente colocar preços uniformes e deixar que oportunidades de ganho não fossem exploradas, já que seria uma conduta irracional . No caso das externalidades a situação é fundamentalmente a mesma, já que indivíduos que são prejudicados pelas externalidades iriam agir para internaliza-las, se assumirmos que eles deixam de internalizar as externalidades equivale a assumir que são irracionais. No caso dos bens públicos a situação é diferente, nesse caso é dito que existem bens que por suas características físicas não podem ser transacionados no mercado, simplesmente se assume que os agentes vão deixar de transaciona-los, mesmo que uma transação desses bens seja mutuamente benéfica. É obvio que a teoria dos bens públicos, em sua formulação vulgar, assume que os agentes são irracionais. Na verdade, segundo a teoria neoclássica propriamente formulada, toda alocação de mercado é sempre eficiente quando incluímos todos os custos relevantes para as escolhas dos agentes. Já que uma alocação ineficiente representa uma situação onde que os agentes falham em perceber oportunidades de ganho mutuo, logo falham em agir de forma ótima.


Segundo os economistas neoclássicos puros, as falhas de mercado existem porque o custo de corrigi-las é maior do que os benefícios colhidos com sua eliminação. Na teoria neoclássica pura o mercado nunca falha, mas o estado pode ser mais eficiente do que o mercado em certos casos, devido a diferenças nos custos de transação. Os custos de transação do mercado e do estado seriam diferentes devido a sua natureza distinta. Já que barganhar voluntariamente é diferente de confiscar e distribuir. Nesse casos onde os custos de transação são maiores do que os custos da realocação coercitiva, a ação estatal pode ser realmente benéfica. Isso é verdadeiro se assumirmos que o agente estatal tem como fim a eficiência econômica, se ele não tiver como fim a eficiência econômica então a ação estatal nunca será eficiente.


Já a escola austríaca não assume que os indivíduos maximizam a utilidade. Ela assume que os indivíduos agem com o propósito de maximizar a utilidade. Qual seria a diferença? A diferença está no fato de que os indivíduos erram, e falham em maximizar a utilidade por causa desses erros. Os erros existem porque o indivíduo não tem conhecimento perfeito dos meios disponíveis para atingir seus fins. Mas embora ele não tenha conhecimento perfeito, ele adquire conhecimento através da passagem do tempo, já que ao longo do tempo ele pode descobrir seus erros e modificar seus planos de ação, se aproximando gradualmente do ponto de maximização da utilidade, que é o ponto de equilíbrio, onde ao longo da passagem do tempo os planos de ação dos indivíduos não mudam. Para a escola austríaca o equilíbrio não é uma situação onde todas as variáveis estão ajustadas umas as outras, essas variáveis sendo consideradas como seres independentes da ação humana individual, mas sim uma situação onde cada indivíduo consegue ajustar seus planos de ação perfeitamente com os planos de outros indivíduos e com os dados do mercado. É uma noção de equilíbrio baseada no individualismo metodológico e no subjetivismo do valor, onde o equilíbrio econômico é uma situação em que não existe nenhuma “força” que leve aos indivíduos mudarem os seus planos de ação.


Como os indivíduos falham em maximizar a utilidade, um mercado sempre deixa de atingir o ponto de maximização da eficiência porque sempre existem erros de alocação causados pelas falhas dos indivíduos em perceber (ou seja, antecipar) esses erros. O processo de mercado consiste num processo de descoberta constante de novos elementos no quadro de meios e fins com que o individuo tem que ajustar suas ações, onde gradualmente os erros anteriores são descobertos e corrigidos e o mercado se move em direção a um equilíbrio. Como o processo de transmissão dos dados do mercado para a estrutura do sistema econômico é imperfeito, as variáveis do mercado sempre estão parcialmente descoladas do dados subjacentes, no equilíbrio temos o mercado completamente ajustado com os dados subjacentes. Mas o equilíbrio nunca é atingido, já que quando o agente falha em antecipar a totalidade das conseqüências de suas escolhas, ele gera mudanças não antecipadas nos dados do mercado, que acabam mudando o potencial estado de equilíbrio. Logo se a capacidade individual de coordenar suas ações com outros indivíduos e com os dados do mercado através da descoberta espontânea de conhecimento for imperfeita (ou seja, menos que ilimitada), nunca teremos um equilíbrio genuíno, embora a aproximação seja possível se os erros forem corrigidos mais rapidamente do que novos erros se formarem.


Se torna claro que o ponto de equilíbrio é onde a teoria neoclássica e a teoria austríaca se encontram. Podemos afirmar que a escola neoclássica se concentra num caso especial da teoria austríaca, no caso onde cada indivíduo conseguiu formular um plano de ação perfeito, justamente porque o indivíduo tem uma percepção perfeita da realidade. Logo a definição do ponto fundamental de ambas as escolas se torna clara: A teoria neoclássica considera a capacidade da mente humana de perceber os meios disponíveis para atingir fins como sendo ilimitada, já a escola austríaca considera que a capacidade de mente humana é limitada e ao longo do tempo que ela percebe essa estrutura de meios, ou seja, para os austríacos a mente humana nunca é perfeitamente alerta, para os neoclássicos ela esta sempre completamente alerta.


Para ilustrar: Ambas escolas de pensamento concordam que num equilíbrio geral, os preços de todas as mercadorias são os mesmos ao longo do mercado. Mas para um neoclássico, quando os preços de um mesmo produto são diferentes num mercado, isso significa que existem custos implícitos de informação e transação que se forem incluídos no preço do produto, sempre vão resultar na equalização dos preços. Já para economistas austríacos diferenças de preços de um mesmo produto surgem não somente de custos em cobrir essas diferenças, mas sim do fato que os indivíduos não descobriram essa possibilidade de lucro anteriormente, após descoberta, empresários irão comprar onde é mais barato e vender onde é mais caro. Logo surge uma tendência a equalização dos preços, que se completa quando o sistema econômico entra em equilíbrio e a teoria Neo-Walrasiana de equilíbrio geral se torna completamente valida.


Tanto a teoria neoclássica pura (que é o modelo de equilíbrio geral) quanto a teoria austríaca moderna (o paradigma Kirzneriano) são em sua estrutura lógica interna coerentes, a diferença está no grau de realismo de suas preposições básicas.

2 comentários:

Juliano Torres disse...

Excelente!!!

thiago scherer disse...

É interessante ler um post que faz um paralelo entre a escola neoclássica e a escola austríaca... Muito boa a leitura!