17 de abril de 2008

Ensáio - Fundamentos da teoria de processo de mercado

Para os economistas da EA o principio econômico básico é o princípio da ação humana. Ação humana é o fato de que os indivíduos sempre estão agindo com o propósito de passar de um estado menos satisfatório para um mais satisfatório, já que os indivíduos continuamente percebem possibilidades de ação, ou seja, de modificação de suas escolhas com a passagem do tempo. Esse processo de mudanças nas percepções individuais dos agentes da realidade econômica, que ocorre devido a passagem do tempo, em que suas escolhas se inserem gera sempre ajustamentos em toda a estrutura do mercado, o nome que os economistas da EA deram para esse processo é processo de mercado. Onde o mercado não é um local ou uma entidade mas simplesmente o processo de mudanças nas escolhas que os indivíduos tomam em relação as trocas que realizam com outros indivíduos.

Nessa figura temos uma representação de um estado de equilíbrio geral num sistema simples com 2 agentes e 2 bens. Esses modelos falham em explicar como que os preços oferecidos pelos agentes no mercado são produzidos, o modelo acaba considerando os preços como sendo determinados pelo processo de "tâtonnement".

Num mundo hipotético em equilíbrio geral a ação humana não existiria. A ação humana é um elemento dinâmico, porque num mundo perfeitamente ajustado aos dados relevantes para a escolha seria um mundo sem ação. Como se sabe, nos modelos neo walrasianos de equilíbrio geral todas as transações possíveis são realizadas no tempo 0. Mas no mundo real todas as transações mutuamente benéficas possíveis não foram realizadas num passado imemorial e hoje tudo o que ocorre e ocorreu não foi antecipado por essas transações imemoriais. O mundo é dinâmico, as mentes de todos os indivíduos sempre modificam sua percepção da realidade através de descobertas espontâneas das conseqüências dos erros de suas escolhas passadas, que se mostram erradas justamente pela interpretação subjetivas dos indivíduos dos processos de execução dos planos de ação de cada um.


Ao longo da década de 30, Hayek gradualmente descobriu a partir de suas pesquisas no campo das flutuações econômicas e no debate sobre a possibilidade do cálculo econômico no socialismo que a essência do processo de mercado se encontra no conhecimento. Ou seja, na capacidade da mente humana em conhecer o que é relevante para a satisfação de suas necessidades. Se essa capacidade fosse ilimitada, então num período de tempo infinitesimal todo o conhecimento relevante para suas escolhas seria descoberto. Todas as decisões sobre o plano de ação seriam realizadas instantaneamente e a ação humana não existiria. Mas ela existe, justamente devido a capacidade limitada da mente humana em perceber a realidade econômica a sua volta.


Para os economistas dessa tradição a ferramenta central utilizada para explicar porque que os mercados conseguem se coordenar com relação a um mundo em constante mudança é a descoberta de oportunidades lucrativas por parte dos empresários alertas a essas oportunidades. Como a capacidade de estar alerta é limitada, o mercado unifica a percepção de milhões de indivíduos à oportunidades de trocas mutuamente benéficas através desse processo de descoberta de compras e vendas lucrativas.


O que é o lucro? Mesmo após mais de 200 anos de desenvolvimento da ciência econômica o lucro ainda não foi isolado analiticamente pelos economistas do mainstream, já que no modelo de equilíbrio geral os preços de todos os bens são uniformes pelo mercado. Mas os economistas da EA já descobriram a essência do lucro: O lucro é um elemento dinâmico da ação humana, onde o agente descobre uma possibilidade de modificação no seu plano de ação que leve a uma situação mais satisfatória do que a situação esperada anteriormente (o prejuizo é o inverso: ele tem expectativas excessivamente otimistas e descobre que sua situação atingida é menos satisfatória do que a esperada anteriormente). Ele lucrou a diferença entre o estado de satisfação esperado e o estado de satisfação atingido depois da descoberta. No sentido social o lucro significa a descoberta por um terceiro de uma possibilidade de ganho mútuo que ainda não foi explorada pelos agentes proprietários dos bens que deixam de ser trocados. Ou seja, quando um empresário descobre que pode oferecer ao proprietário de um bem algo que ele preferiria à aquele bem, e que o próprio proprietário não havia percebido, esse algo sendo um bem comprado com o bem que o proprietário anterior está disposto a trocar pelo próprio algo. O excedente dessa operação é o lucro.


Para exemplificar: Temos 3 agentes, A possuí x, B possuí 10y, C (empresário) não possuí nada. Mas A valora x em 5y e B valora x em 10 y. Logo A e B podem realizar uma troca voluntária mutuamente benéfica. Como eles deixam de realizar essa troca, temos a possibilidade de lucro. O agente C pode oferecer 6y pelo x de A e vender o x por 9y para B. Como B e A não perceberam a possibilidade de ganho, a alternativa oferecida para eles através do empreendedor representa um ganho não esperado para ambos, logo ambos aceitam a oferta e o empresário acaba lucrando 3y no processo. Nota-se que a teoria do processo de mercado não precisa de preços paramétricos como a teoria padrão, já que o processo de formação dos preços é determinado pela ação empresarial.


Na verdade toda a troca potencial mutuamente benéfica que ainda não foi realizada no mercado é uma oportunidade de lucro ainda não descoberta. O mercado é um processo de contínua descoberta dessas possibilidades de lucro. E o progresso econômico dos países capitalistas nos últimos 200 anos se deve em grande parte a elevação na eficiência da alocação dos fatores de produção, que representa a descoberta espontânea de oportunidades lucrativas. Além da acumulação de capital que representa o crescimento planejado pelos agentes através da restrição do consumo no presente para elevação do consumo futuro.


Para a EA o entendimento do papel da mente humana em ação, modificando constantemente sua percepção da realidade é fundamental para o entendimento satisfatório da economia. Principalmente o entendimento da incapacidade da mente em perceber tudo o que é relevante para satisfazer as suas preferências num temo infinitesimal, o que abre espaço para a existência de imperfeições no mundo real e para o processo que é o mercado que gradualmente leva ordem para o sistema econômico através da descoberta de oportunidades lucrativas de investimento.

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