9 de abril de 2008

Ensáio - Microeconomia e macroeconomia II: ciclos de negócios

Num post anterior, Microeconomia, macroeconomia e a razão dessa compartimentalização, fiz uma exposição das diferenças entre os problemas micro e a macro e expliquei porque que essas diferenças emergem a partir do problema do conhecimento. Basicamente, a microeconomia lida com a lógica pura da escolha, onde cada indivíduo consegue maximizar a utilidade, já a macroeconomia lida com os problemas derivados da incerteza causada pelo conhecimento imperfeito dos indivíduos em relação ao framework de meios e fins relevantes para suas escolhas.


Após a argumentação do post anterior, que colocou as bases do que está sendo desenvolvido nesse post, já se torna possível explicar as teorias de desequilíbrio dos ciclos de negócios a partir da ótica da teoria de processo de mercado. Explicarei a teoria austríaca dos ciclos de negócios e a teoria padrão de flutuações agregadas geradas por choques na demanda agregada que é a teoria típica dos livros didáticos de macroeconomia, também chamada de neokeynesiana, ou síntese neoclássica.


A teoria padrão para explicar quedas no volume de produção de bens e serviços se baseia em choques na demanda agregada. A lógica básica da teoria é bem simples: Se a demanda agregada cair, a produção caí junto. A demanda agregada é definida como o agregado da oferta de moeda para todos os bens e serviços ofertados no mercado. Essa teoria se baseia na analise de agregados, como demanda agregada, oferta agregada, a nas suas relações de causa e efeito. Ela desconsidera os efeitos gerados por choques nos preços relativos do mercado, ou seja, mudanças de preços não no agregado como um todo, mas nas suas partes ou seja, nas distorções relativas da vários setores do sistema econômico causados por essas mudanças nos preços relativos. Essa teoria se concentra apenas na queda na demanda geral por todos os bens e serviços, e assume que essa queda seja uniforme.


Mas um observador atento nota que pela teoria econômica de preço não há nenhum problema nisso, já que uma redução na demanda agregada, ou seja, uma redução na oferta agregada de moeda, só vai gerar uma tendência a redução geral nos preços, ou seja, a valorização da moeda. Os preços dos produtos finais vão cair, mas as empresas não vão ter prejuízo já que os preços dos fatores vão cair, e todos os preços vão se mover na mesma direção e no mesmo grau. O choque não vai gerar uma redução no grau de coordenação dos agentes, ou visto do ângulo de estatísticas agregadas, uma redução no produto. A moeda é completamente neutra na teoria de preço neoclássica. Como já expliquei antes, não existe moeda nessa teoria. Logo qualquer noção de demanda agregada não faz sentido para a teoria neoclássica pura.


Na verdade, variações no demanda agregada só podem gerar efeitos reais sobre o sistema econômico se os preços não se equilibrarem instantaneamente. Se os preços levam tempo para igualar a quantidade ofertada e a quantidade demanda então um choque na demanda agregada, reduzindo a oferta de moeda no sistema econômico, pode reduzir o produto real transformando a constelação dos preços pelo mercado em preços em desequilíbrio, ou seja, preços falsos. O choque na demanda gera uma descoordenação geral dos planos dos agentes, ou seja, uma massa de erros empresariais. Os empresários simplesmente falharam em antecipar esse choque, e dessa forma, não ajustaram seus planos para colocar os preços em equilíbrio após o choque. Isso ocorre porque eles desconhecem o choque, e só após sentirem seus efeitos é que vão reajustar os preços, e esse processo de ajuste dos preços a redução geral na oferta de moeda leva um certo período de tempo.


Como o modelo macroeconômico padrão vê o resultado de um choque na demanda agregada como refletindo em agregados econômicos, se torna possível imaginar uma ação estatal corretiva para uma redução na demanda agregada. O estado simplesmente eleva a demanda agregada através de déficits ou através da expansão monetária. Dessa maneira o mercado chegaria num equilíbrio mais rapidamente do que se dependesse apenas do ajustamento dos preços. Mas se compreendermos a natureza complexa (heterogênea) do sistema econômico se torna claro que uma elevação da demanda agregada por um acréscimo nos gastos do estado, ou pela injeção de moeda no sistema financeiro, não vai gerar uma tendência mais rápida a coordenação dos agentes, simplesmente porque esse choque positivo da demanda agregada vai ter efeitos desproporcionais nos preços do mercado e assim gerar uma desproporcionalidade da alocação dos fatores em relação as preferências dos consumidores. Ou seja, as conseqüências do choque positivo na demanda agregada causado pelo estado para equilibrar o mercado serão exatamente o contrário do planejado pelos macroeconomistas neokeynesianos.


Mas as forças equilibrativas do mercado são robustas, principalmente quando tratamos do equilíbrio parcial entre a oferta e a procura de um único bem. Se os empresários falham em antecipar uma queda na demanda por esse bem, um excesso de oferta sobre a procura desse bem emerge, logo os empresários descobrem que o preço que eles esperavam que o mercado absorvesse na verdade estava muito elevado e reajustam seus planos para um preço mais baixo. Quanto maior for o número de agentes no mercado, mais rapidamente os preços se equilibrarão, já que quanto mais mentes agindo e percebendo, maior é o volume de descobertas de erros, e mais rapidamente os erros são corrigidos. Isso significa que uma queda na demanda agregada que não for antecipada pelos empresários só vai gerar uma leve contração econômica, que será corrigida rapidamente, principalmente no modelo padrão onde a queda na demanda agregada gera uma redução dos preços no mesmo grau e sentido em todos os produtos finais e nos fatores de produção. Nesse caso o mercado se coordenaria rapidamente e as conseqüências de um choque da demanda agregada são pequenas, se limitando a pequenos estoques que deixarão de ser vendidos no tempo planejado, mas serão vendidos logo depois que os preços se equilibrarem.


Muito mais complexo que equilibrar a oferta e a procura de um bem é equilibrar os preços relativos do mercado. Ou seja, igualar as taxas de retorno dos milhares ou milhões de setores de uma economia de mercado. Esse tipo de problema demanda a percepção dos empresários para oportunidades de lucro ainda não descobertas, é um processo diferente do simples processo de equilibrar a oferta e a procura. Já que no último caso, o processo equilibrativo não demanda grande percepção de oportunidades não exploradas, porque o excesso de procura ou oferta se manifesta ao longo do tempo “na frente” do agente. Então o agente percebe facilmente o erro anterior e modifica seu plano para levar em conta as conseqüências desse erro. Já o erro de falhar em perceber oportunidades de investimento mais lucrativas não é percebido “automaticamente”, mas demanda um grau maior de percepção de oportunidades não exploradas. Isso significa que o processo equilibrativo de mercado é muito mais rápido e robusto para equilibrar a oferta e a procura de um bem oferecido numa parte do mercado do que para equilibrar os preços relativos no sistema econômico. Logo uma distorção nos preços relativos causa problemas muito mais sérios para a coordenação dos agentes do que um simples choque na oferta agregada de moeda que reduziria a oferta de moeda em todos os setores da economia com a mesma intensidade.


A teoria austríaca dos ciclos de negócios é uma teoria que tenta explicar ciclos, não somente crises como a teoria padrão. Ela se baseia justamente nas distorções da estrutura de preços relativos para explicar os ciclos. Para os adeptos dessa teoria, o ciclo de negócios é um processo de equilibração que passa por um boom termina com uma crise. Se a economia estivesse em completo equilíbrio, ciclos nunca emergiriam, só quando temos um sistema econômico que pode estar relativamente próximo do equilíbrio e que é empurrado para mais longe do equilíbrio por uma emissão de moeda no sistema financeiro que temos ciclos de negócios.


O entendimento da estrutura intertemporal de produção, derivada da teoria dos juros baseados na preferência temporal, explica porque o sistema econômico pode entrar num período de boom seguido por um período de contração econômica. A estrutura intertemporal de produção é composta por bens de capital heterogêneos com grau variado de distância temporal dos bens de consumo final. Todo bem de capital deriva seu valor da expectativa que os empresários tem de satisfazer as necessidades dos consumidores, descontadas com a taxa de juros ao longo do tempo.


Se o crédito na economia é expandido, ou seja, se emitem moeda e injetam essa moeda primeiramente no sistema financeiro, temos uma elevação na volume de crédito ofertado no mercado. Essa injeção de crédito ofertado no mercado reduz a taxa de juros. A redução na taxa de juros torna lucrativo investir em bens de capital mais distantes temporalmente do consumidor, já que se o preço do bem de capital era de 50, e seu produto era de 100, mas os juros da totalidade do período de produção eram de 100%, a lucratividade é zero. Com a redução da taxa de juros para, digamos, 2/3 da taxa original desse período temporal de produção, o preço de equilíbrio parcial do bem de capital se desloca de 50 para 60. Se torna lucrativo investir na compra de bens de capital mais distantes temporalmente do consumidor. A demanda por bens de capital se eleva, juntamente com os preços desses bens de capital. Emerge uma tendência no sistema econômico. Uma tendência de que uma maior quantidade de fatores de produção seja alocado para a produção de bens de capital e uma quantidade menor de fatores de produção seja alocado para produzir bens de consumo.


Com a expansão da indústria de bens de capital, a produção de bens de consumo tende a se reduzir no curto prazo. Mas embora a oferta de crédito tenha crescido com a injeção de moeda no sistema financeiro, as preferências temporais dos consumidores não se alteraram. E como a taxa de juros do mercado se reduziu, emerge uma tendência dos consumidores reduzirem sua poupança e elevar seu consumo. Logo os preferências temporais dos consumidores se chocam com a alocação dos fatores de produção no mercado. As proporções de consumo e investimento do sistema econômico não se encaixam com as proporções demandadas pelos consumidores. O processo do ciclo de negócios termina quando a injeção de crédito cessa, os juros sobem, a lucratividade dos investimentos de bens de capital se tornam negativas. Toda uma constelação de expectativas dos agentes se revelam incorretas, e esses erros geram uma onda de choque sobre o sistema, gerando mais erros de outros indivíduos e aprofundando a crise. Mas se alguns empresários anteciparem corretamente a alta dos juros e a queda dos preços dos bens de capital então suas indústrias de bens de capital não vão sofrer prejuízos, elas só irão reduzir sua produção se antecipando para a crise. Na verdade, se todos os agentes da economia anteciparem corretamente a totalidade das conseqüências da expansão de crédito, então não teríamos ciclo, porque o processo de ajustamento da economia já teria sido efetuado instantaneamente. Ou seja, a economia estaria em perfeito equilíbrio. Só se os agentes não conseguirem antecipar perfeitamente o futuro estado do mercado que o ciclo de negócios emerge. Então, da mesma maneira que a teoria padrão, a teoria austríaca também é baseada no problema do conhecimento. Mas como ela se baseia nos preços relativos e na estrutura intertemporal de produção, então o problema do conhecimento gerado pela expansão do crédtio é um problema muito mais complexo do que uma redução na oferta de moeda. Diferentemente da teoria neokeynesiana, a teoria austríaca não precisa assumir que as tendências equilibrativas do mercado sejam insignificantes, já que ela na verdade apenas assume que o processo de mercado não seja instantâneo para todo o sistema. Logo assume um comportamento muito mais realístico dos agentes.


O processo de injeção de crédito no sistema financeiro gera um crescimento econômico semelhante ao crescimento causado por uma mudanças nas preferências temporais dos agentes. Mas diferente das mudanças nas preferências temporais, uma expansão monetária só pode gerar efeitos temporários na estrutura intertemporal de produção do sistema econômico. A remoção dos efeitos da expansão de crédito sobre a economia ocorre com a crise, que é a descoberta do erro que foi ter realocado fatores para uma estrutura intertemporal mais alongada do que a preferida pelos consumidores. O problema é que esse erro não foi um erro individual, um empresário que investiu nos bens de capital não errou em auferir lucros com a diferença dos preços que emergiu na expansão de crédito, mas na verdade ele gerou as forças de ajustamento que levarão a descoberta dos erros com a crise. Claro que o processo de descoberta dos erros leva tempo, principalmente num processo cíclico que passa pela estrutura intertemporal da economia, e desses erros que surgem as perdas de crescimento de longo prazo com os ciclos de negócios devida a má alocação dos fatores. É obvio que os ciclos reduzem a robustez do crescimento econômico a longo prazo, já que geram desperdícios com a má alocação dos fatores, que poderiam ser utilizados para satisfazer as preferências dos consumidores mas são disperdiçados para saciar a demanda fantasma do crédito injetado no sistema.


Para exemplificar porque que a ação do empresário que lucra com o ciclo de negócios não é um erro, mas é na realidade é parte do processo de descoberta e correção dos erros, podemos imaginar uma empresa que espera que seu investimento no mercado de bicicletas seja um investimento lucrativo. O empreendedor tem a expectativa de que exista uma demanda não suprida por bicicletas, e para suprir essa demanda ele investe numa fabrica de bicicletas. A produção de bicicletas demanda aço, logo a demanda por aço se eleva, elevando o preço do aço. Mas esse empreendedor estimou incorretamente o estado do mercado, na verdade o setor das bicicletas está saturado, logo foi um erro ter investido na produção de bicicletas. Mas como o preço do aço se elevou, investir na produção dessa matéria prima para a produção de bicicletas se tornou uma oportunidade lucrativa para um empresário alerta. Será que podemos considerar o investimento na produção de uma matéria prima utilizada na produção de um bem de consumo não demandado pelos consumidores um erro? Não, já que na verdade, esse não foi um erro! Justamente porque o investimento na produção da matéria prima necessária para a produção de bicicletas possibilitou a produção das bicicletas, o que possibilita a descoberta do erro que foi estimar que o mercado demandaria mais bicicletas do que realmente demandou. Então o investimento no produção de aço permitiu a descoberta do erro do empreendedor proprietário da fábrica de bicicletas. É o mesmo tipo de situação do empreendedor que lucra com a produção de bens de capital que os consumidores realmente não estão dispostos a financiar, mas esses investimentos permitem que a expansão de crédito gere um processo que leve a correção dos erros gerados pela própria emissão do crédito.


Mas somente uma expansão do crédito pode gerar um período de boom seguido por um período de crise. Porque somente esse tipo de emissão monetária gera poupança forçada, que eleva o alongamento temporal da estrutura de produção. Ou seja, somente a expansão do crédito pode fazer com que o sistema econômico opere como que se o volume de capital disponível para investimento fosse maior do que realmente é. Com a expansão de crédito logo surge a expectativa de que a produtividade da mão de obra é maior do que o estoque de capital permite que seja, então os salários tendem a se elevar e as empresas tendem a ter lucros mais elevados. Com uma contração do crédito (deflacionária) temos o efeito oposto, a expectativa da produtividade do trabalho caí, os salários caem e os lucros se tornam menores ou mesmo negativos, dependendo da intensidade da contração. Uma contração geral do crédito gera estagnação ou uma crise, se for muito intensa, não gera um ciclo.


Se torna claro que um entendimento da natureza do processo de mercado permite compreendermos que como é muito mais difícil gerar tendências coordenadoras das ações dos agentes de toda estrutura intertemporal de produção do que uma tendência coordenadora para que preços igualem a oferta e a procura em mercado individuais, a expansão do crédito gera efeitos muito mais perversos sobre o sistema econômico do que um simples choque na demanda agregada, que tende a ser corrigido rapidamente. Uma redução na demanda agregada só pode gerar uma crise significativa se o estado congelar os preços, e não permitir que os preços se ajustem a uma menor quantidade de moeda ofertada no sistema. Foi exatamente isso que ocorreu durante a grande depressão nos EUA na década de 1930. A teoria do processo de mercado também permite compreender porque choques nos agregados econômicos gerados pela intervenção estatal não tendem a corrigir os erros causados por outros choques anteriores, mas na verdade gerar ainda mais erros de coordenação dos planos dos agentes.

1 comentários:

Rafael Guthmann disse...

Esse texto ficou muito mal escrito. Vou dar uma geral nele.