23 de maio de 2008

Ensáio - "Superprodução"?

O mito da “superprodução”


A falácia econômica mais popular entre os leigos em economia é o conceito de “superprodução”, ou seja, da idéia de que uma crise econômica generalizada pode ser causada por um hipotético excesso de produção de bens em geral. Basicamente essa idéia afirma que a produção excessiva de riquezas durante um período de prosperidade leve a um excesso de produção em relação a demanda agregada, ou seja, que leve a um volume de produção maior do que o volume em que as pessoas tenham dinheiro suficiente para comprar. E assim os estoques das empresas acabam não sendo vendidos, as empresas vão a falência, ocorrem demissões em massa, os empregados demitidos acabam reduzindo seu consumo e a economia entra no buraco, ou seja, numa espiral deflacionária.


Para refutar essa teoria rústica é necessário apenas o entendimento mais básico da natureza da ciência econômica. Qual é o problema econômico fundamental? O problema econômico fundamental é o de alocar meios escassos para satisfazer fins praticamente ilimitados. Ou seja, é um problema de alocar recursos escassos da melhor maneira possível (ou um austríaco poderia acrescentar: o problema também incluí o próprio processo de percepção desses recursos que o agente tem que alocar), ou seja, é um problema fundamentado no fato óbvio da existência de escassez de recursos que limita a escolha humana a um conjunto limitado de opções de escolha ou seja, de cestas de consumo possíveis.


Superprodução significa excesso de produção de riquezas, mas quando que poderíamos ter um excesso de produção de riquezas? Num mundo onde a escassez não mais existisse. Esse mundo é hipoteticamente possível? Claro que não, já que mesmo se assumirmos que os bens materiais deixem de ser escassos (digamos, se os carros e eletrodomésticos caíssem do céu) o tempo ainda será escasso assim como os serviços realizados diretamente pelo trabalho de um ser humano. Superprodução não é uma palavra que faça sentido no mundo real caracterizado pela escassez, na verdade todo aumento na produção de riquezas é bem vindo, porque significa melhora nas condições de vida da população. O que significa crise econômica? Crise econômica significa a grosso modo uma redução no nível de satisfação dos consumidores em relação as suas possibilidades de consumo dados seus recursos, ou seja, uma redução na capacidade de satisfação das necessidades das pessoas através da redução dos meios para satisfazer essas necessidades. Então fica claro que afirmar que um “excesso” de produção causa crises equivale a defender um absurdo desse naipe: As pessoas acabam ficando pobres porque estão ficando ricas!


A Lei de Say


Existe muita polêmica e mitologia sobre a lei de Say, já que ela é foi uma descoberta que demoliu definitamente as falácias de superprodução e subconsumo, muito presentes na mente das pessoas leigas em economia no início do século XIX. Uma de suas caracterizações mais comuns é de que supostamente a oferta “cria” sua própria demanda. Essa interpretação da lei de Say é ridícula, e manifesta a falta de entendimento do que Say quis dizer com sua lei dos mercado. Basicamente a lei de Say é a lei de Walras, mas articulada de forma menos precisa. Ela afirma que todo excesso de oferta de um bem implica logicamente num excesso de demanda por outro bem. Por exemplo, num mundo com dois bens, laranjas e maças, um excesso na oferta de laranjas implica logicamente na falta de oferta de maças, ou excesso de demanda por maças em relação a oferta. Isso ocorre porque nesse mundo com 2 bens as laranjas são trocadas pelas maças, ou seja, a oferta de laranjas é a demanda por maças e a demanda por laranjas é a oferta de maças, porque todas as transações são trocas de maças por laranjas nesse sistema simples.


Organizando: Toda oferta é uma procura, porque tudo o que é oferecido é oferecido se demandando algo em troca. Logo é impossível logicamente que exista um excesso global de oferta no mercado, já que equivale logicamente a tentativa de se desenhar um triângulo quadrado. Embora essa lei já tenha sido absorvida pelo mainstream desde o século XIX, ainda é possível encontrar economistas que tentaram refuta-la, como por exemplo, Keynes, que refutou na verdade o que ele achou que era a lei de Say. Keynes definiu a lei de Say como: Toda oferta cria sua própria demanda, que como escrevi no parágrafo anterior, é a interpretação padrão dessa lei, uma interpretação sem dúvida vulgar. O fato do Keynes ter utilizado essa interpretação prova que ele não havia compreendido a lei de Say satisfatoriamente. Na verdade nunca foi dito que a oferta cria a sua própria demanda, o que é absurdo, mas sim que a oferta é demanda por outro bem. Embora seja verdade que numa situação de equilíbrio geral a oferta e a demanda se igualem em todos os setores, isso não significa que a oferta crie sua demanda, mas que os agentes conseguiram antecipar corretamente os preços que os outros agentes estão dispostos a pagar/vender seus bens na quantidade esperada no momento em que os agentes formularam seus planos de ação.


A complicação da moeda


Muitas pessoas pensam que a lei de Say é refutada pela existência de uma economia monetária, ou seja, que a lei de Say é valida numa economia não monetária, mas não numa economia monetária. Já que numa economia monetária as pessoas não demandam bens quando ofertam bens, mas sim demandam moeda, que depois será utilizada para demandar bens através de sua oferta. Mas isso não refuta a lei de Say, mas na verdade é apenas mais uma aplicação dela no caso de uma mercadoria que é ofertada em troca de todas as outras e demandada por todas as outras. Não existe nenhum problema na lei dos mercados com a introdução da moeda já que ela apenas simplifica o problema: Para termos excesso de oferta de bens em relação a oferta de moeda é necessário que a relação de oferta e demanda por moeda não se equilibre instantaneamente. Ou seja, é necessário que o preço da moeda nunca esteja em seu valor de equilíbrio parcial e que leve tempo para chegar nesse valor. Mas isso está incluido na lei de Say: Temos excesso de oferta de bens e falta de oferta de moeda.


É na rigidez dos preços que as teorias monetaristas e neo-keynesianas assentam suas teorias macroeconômicas, já que segundo essas teorias os ciclos de negócios são produto de choques de demanda agregada (oferta de moeda) sobre todo o sistema econômico, que acabam provocando discrepâncias entre a oferta e a procura dos vários bens e fatores negociados no mercado. Mas com passar do tempo os preços vão se aproximar da igualdade entre oferta e procura, o problema é que essa aproximação não é instantânea. Ela não é instantânea porque os agentes levam tempo para perceber os erros em seus planos de ação e assim corrigi-los.


Eu discordo em relação a utilidade que a maioria dos economistas atribuí a esse tipo de explicação dos ciclos de negócios, porque penso que as distorções dos preços relativos causadas por choques monetários sejam uma força descoordenadora dos planos de ação dos indivíduos muito mais forte do que uma queda uniforme na oferta de moeda em relação a todos os bens ofertados no mercado. Já que o processo equilibrativo desse tipo é muito mais complexo e demorado do que simples reajustes de preços para igualar a oferta e a procura.


Concluindo


O grande problema econômico não é conseguir encontrar usos para recursos ilimitados, mas sim utilizar meios limitados para satisfazer fins ilimitados. Além é claro do próprio processo de percepção da estrutura de meios e fins, ou seja, o processo de descoberta desses meios na mente dos agentes através da percepção espontânea de coisas novas com o passar do tempo.

4 comentários:

Juliano Torres disse...

É muito importante desfazer esse mito. Eu mesmo aprendi isso no ensino médio e só acabei rejeitando por discordar em tudo do meu professor de geografia que me chamava de neo-liberal, achando que me ofendia.

Rafael Guthmann disse...

Esse é o mito mais triste de todos. Eu mesmo descobri que estava errado antes de ter lido qualquer coisa de economia, só pensando, é muito fácil de refutar.

Anônimo disse...

quanta burrice!

ppp disse...

Esse argumento é completamente falho.
Realmente, o pensamento de todos vocês que concordaram com essa teoria não está errado. Porém, faltou incluir um pequeno detalhe no início da explicação, e esse detalhe vai fazer toda a diferença no final.

Existe uma condição para que a mercadoria produzida seja "riqueza". Essa condição é estar inserida no circuito econômico, i.e., aquele modelo de fluxo circular da renda do Quesnay e posteriores, usados até hoje, sobretudo em contabilidade social.
Aquilo que se produz e não é colocado nesse circuito, ainda não é riqueza. É apenas uma mercadoria parada, sofrendo depreciação, que não gerou lucro para o produtor e nem utilidade para o consumidor. É um peso morto para a economia.

Se você realmente acredita que tudo o que é produzido automaticamente se transforma em riqueza, pergunte para um padeiro por que é que ele mantêm sua oferta de pães quase constante todo o mês, e pergunte também se ele lucraria ao aumentar sua oferta em 100%.

Provavelmente ele te diria que mantem constante porque aquela é sua oferta efetiva. Se aumentar a oferta, sobrará pão, e esse depreciará, gerando assim prejuízos e não lucros.

Se tal teoria fosse fato, todos os produtores estariam aumentando suas ofertas loucamente para maximizar lucro. Mas não é isso que ocorre. Todos eles tem medo da superprodução, e não somente porque os livros de história falam sobre isso, mas porque conheceram isso por experiência própria.

Se tudo na economia fosse puramente fácil e lógico, não perderíamos tempo com cálculo diferencial e integral, etatística e modelos econométricos. Existem coisas que se levadas apenas pela lógica podem nos confundir. Isso é um assunto sério, que deve ser discutido apenas por economistas e não por simpatizantes. Nem tudo você aprende só lendo um livro ou outro de economia. Você precisa passar ao menos 4 anos de graduação pra ter uma base mínima para qualquer discussão teórica.

Abraços