1 de junho de 2008

Ensáio - Bancos, Moeda, Ciclos e Processo de Mercado, parte 2

Continuação da Parte 1, mas com alguns conceitos explicados novamente.


Resumindo a idéia principal do primeiro artigo: O processo competitivo no sistema bancário gera uma tendência maior a aproximação da moeda do equilíbrio. E essa tendência acaba por gerar uma expansão na quantidade de fato de moeda em circulação no sistema econômico. O problema é que como um aumento na oferta de moeda não gera uma tendência uniforme sobre o sistema de preços do sistema econômico, mas sim gera uma desproporcionalidade do grau e do momento com que os preços das várias mercadorias são reajustados.


No resto desse texto vou dar uma olhada geral nas possíveis conseqüências desse processo de expansão da quantidade de crédito disponível no sistema financeiro sobre o sistema econômico.


Ciclos de negócios


A teoria Mises-Hayek do ciclo de negócios é baseada na idéia da expansão de crédito como fonte geradora dos ciclos de negócios, que são as flutuações semi-periódicas do grau de coordenação dos planos dos agentes num determinado sistema econômico. A expansão do crédito, através da emissão de moeda no sistema bancário, acaba reduzindo temporariamente os juros e essa redução temporária dos juros para um valor abaixo de seu valor de equilíbrio, acaba descarrilhando a estrutura intertemporal de produção das preferências intertemporais dos consumidores. E todo esse processo acaba com a descoberta desses erros, o que é chamado de crise econômica.

Os economistas sabem que o efeito multiplicador bancário pode, hipoteticamente, expandir o crédito. Por exemplo, num sistema monetário baseado no padrão ouro um banco qualquer poderia emitir mais notas do que teria depósitos em ouro por trás dessas notas. Teoricamente, ele poderia emitir uma quantidade infinita de notas. O problema é que ele não poderia expandir de forma sustentada a quantidade de notas, porque os seus clientes iriam descobrir que suas notas não tem ouro por trás e iriam correr para os bancos sacar o ouro. Logo a proporção dos depósitos que é emitida no mercado em forma de notas pelo banco não pode ser muito grande em relação a quantidade de reservas, e geralmente é uma proporção razoavelmente segura, onde o volume de saque dos clientes seja razoável. Segundo Mises, essa proporção não tende a exibir a tendência de se alterar com o tempo. Nesse caso não podemos ter uma expansão duradoura do crédito, e conseqüentemente, não podemos ter uma redução temporária da taxa de juros e assim o ciclo de negócios não emerge. Segundo Mises e a maioria dos seus seguidores, somente com um sistema monetário baseado no papel moeda ou se tivermos um sistema de padrão ouro onde o banco central sirva de seguradora dos outros bancos em momentos de crise, que um processo inflacionário pode emergir e assim podemos ter um ciclo de negócios. Num padrão ouro puro, os bancos não podem expandir crédito se eles tem suas mãos amarradas pelas suas reservas e nenhuma instituição que os salve após uma corrida bancária. Então não teríamos uma expansão contínua de crédito.


Ou seja, pela teoria austríaca padrão, os bancos vão emprestar parte de seus depósitos, mas essa parte não tem tendência em variar ao longo do tempo, ou seja, não temos tendência a expansão ou contração generalizadas do crédito devido ao multiplicador bancário. Só a partir da expansão da base monetária que podemos ter uma expansão de crédito sustentada que leve a um ciclo de negócios. Eu seja só se expandirmos a base monetária, e/ou se o governo agir como segurador de banco (que é a função primordial do BC) que podemos ter uma expansão de crédito sustentada.

Repetindo o argumento da parte 1: Um ponto interessante é que o multiplicador bancário é na verdade um multiplicador da chamada “velocidade de circulação” da moeda. Ou seja, os indivíduos não precisam ficar com a totalidade de seus encaixes em moeda na mão, eles podem depositar esses encaixes nos bancos. O que ocorre então é que os bancos fazem esse dinheiro girar. Mas então podemos notar que é isso o que ocorre quando convergimos para o equilíbrio. Ou seja, quando menor o grau de incerteza sobre os agentes, menor é a demanda por encaixes e assim menor é o valor da moeda e maior é a velocidade de circulação. Os bancos são redutores de incerteza, eles reduzem o grau de incerteza na economia e a aproximam do equilíbrio. Foi Kirzner quem descobriu que o processo de descoberta de oportunidades lucrativas é o processo equilibrativo, bem, o processo de descoberta de oportunidades lucrativas no setor bancário é um processo equilibrativo não só dos juros (preferências temporais) mas também dá moeda. Ou seja, os bancos, ao multiplicar a moeda, estão aproximando o sistema monetário do equilíbrio (velocidade de circulação infinita).

Mas isso me faz perguntar, os juros não tenderiam a zero com a multiplicação infinita da quantidade de moeda? Bem, é claro que no equilíbrio geral os juros não são zero, porque as preferências temporais existem no equilíbrio. Mas o que ocorre se o valor nominal do crédito no mercado for expandido infinitamente na convergência com o equilíbrio? Bem, nesse caso como todos os preços vão se expandir infinitamente e o valor real de crédito ofertado não se altera e não se desloca do seu valor de equilíbrio. Mas como a economia do mundo real nunca está em equilíbrio, então o processo competitivo do sistema financeiro gera uma tendência ao aumento nos preços. E nesse mundo em desequilíbrio, a tendência ao aumento nos preços não ocorre simultaneamente e na mesma intensidade em todos os preços, o que significa que os preços relativos das mercadorias mudam, o que significa que uma expansão na quantidade de “moeda de fato” na economia pelo sistema financeiro eleva a quantidade real de crédito no mercado. E conseqüentemente temos uma expansão de crédito causada pela redução no grau de incerteza em relação as possibilidades de saque dos bancos, essa redução causada pelo processo competitivo entre os bancos, que como Hayek afirmou, é um processo de descoberta (ou seja, redução do numero de coisas que é desconhecido).


E assim temos uma conseqüência extremamente maligna do processo competitivo, quando esse processo ocorre no sistema bancário: A expansão de crédito. E essa expansão de crédito ocorre com o tempo. A situação então é a seguinte: Temos os bancos, os bancos gradualmente aprendem a melhorar a eficiência com que eles conseguem utilizar suas reversas, expandindo o crédito, a economia passa a funcionar como que se tivesse ocorrido uma mudança nas preferências temporais dos agentes devido a essa expansão do crédito, o que significa que temos a fase de boom do ciclo de negócios. Mas com o tempo essa fase de boom acaba e a economia entra em crise. Os bancos sofrem corridas bancárias e vão a falência, a economia se descoordena e o processo tem espaço para começar novamente já que a eficiência com que os bancos utilizam suas reservas é menor. Ou seja, o processo coordenativo do mercado quando atua no sistema bancário, e quando ocorre numa situação onde temos um padrão ouro ou qualquer base monetária que não é ajustada de forma a contrabalançar os efeitos da variação (aumento da intensidade) do multiplicador bancário devido ao processo competitivo, leva a ciclos de períodos de relativa coordenação seguidos de períodos de relativa descoodernação do planos dos agentes pelo sistema econômico.


Mas como que poderíamos evitar o ciclo de negócios? Como os agentes preferem estar coordenados do que estar descoordenados, então existe um potencial de demanda por um sistema monetário superior ao padrão ouro, ou seja, coordenar melhor os planos dos agentes é uma possibilidade de lucro não explorada (na verdade, todas as possibilidades de lucro são modificações nos planos dos agentes para que eles se tornem mais coordenados). E por essa razão o processo de mercado vai tender a formar um mercado por moedas, que vai controlar a emissão de base monetária para contrabalançar os efeitos negativos do aumento na oferta de moeda no sistema financeiro causado pelo processo de competição entre os bancos.

3 comentários:

Juliano Torres disse...

Fenomenal! Como eu vivo dizendo, a 6a geração da EA é brasileira.

Mike disse...

"Bem, é claro que no equilíbrio geral os juros não são zero, porque as preferências temporais existem no equilíbrio. "

Estou em duvida quanto a isso. Acho que li no capitulo O MERCADO de Ação Humana, que o juro tenderia a zero numa situação de equilibrio perfeito. Poderia confirmar? Vou pesquisar p/ me certificar.

Quanto ao resto do texto, excelente. Este blog ja esta nos meus favoritos!

Rafael Guthmann disse...

Mike, os juros no equilíbrio são determinados pelas preferências temporais. Já no mercado dinâmico em desequilíbrio, os juros tendem a se aproximar dos juros de equilíbrio.

A teoria que diz que os juros de equilíbrio seriam zero é a teoria keynesiana, que diz que os juros são um fenômeno puramente monetário. Mas na teoria neoclássica e austriaca, os juros existem no equilíbrio, e são determinados pela taxa de desconto intertemporal dos agentes.