25 de julho de 2008

Ensaio - Falando sobre descoberta espontânea na teoria econômica

O significado da Descoberta Espontânea

Um dos princípios básicos da teoria austríaca moderna é o princípio da descoberta espontânea. É basicamente o aparecimento não antecipado de elementos econômicos relevantes para a formulação de escolhas na mente do agente, elementos que anteriormente não haviam sido percebidos. A descoberta desses elementos não é previamente antecipada e por causa disso o agente não havia percebido anteriormente a relevância desses elementos para seu processo de ação, ou seja, esses elementos passam a existir do ponto de vista econômico para o agente.


Na teoria neoclássica, que compõem a base da teoria econômica do mainstream, não existe descoberta espontânea, o dados com que o agente ajusta seu plano de ação (suas escolhas) são "dados" e o foco está nas escolhas a partir desses dados e não no processo de formação ou determinação dos dados. A economia neoclássica lida com informação, mas é um tipo diferente de informação do tipo que Hayek fala nos seus escritos, o tipo de informação que a economia neoclássica lida é o tipo que pode ser coletado, ou seja, produzido por um custo.


A descoberta espontânea não deve ser confundida com a coleta de informação. Na coleta de informação o agente coleta informações até que o benefício marginal derivado da informação coletada iguale ao custo marginal da coleta de informação. O agente planeja coletar informação antes de possuir essa informação, ou seja, antes de saber de algo o agente sabe que não sabe de algo e sabe que esse algo é importante para que ele consiga agir de forma otimizada, ou seja de forma racional. Do ponto de vista da teoria neoclássica a descoberta espontânea, ou seja, a descoberta não antecipada, viola a hipótese da racionalidade, tornando a teoria austríaca irrelevante ou segundo alguns economistas neoclássicos que leram o livro Competition and Entrepreneurship, e que concederam que a descoberta espontânea existe e faz parte significativa do processo de crescimento econômico mas que ela está fora do âmbito da ciência econômica.


Mas a descoberta espontânea não está fora do âmbito da ciência econômica. Na verdade ela é um dos pontos centrais de estudo da economia. Os processos de formação de preços, de competição, de inflação, deflação, ciclos de negócios e a impossibilidade da existência do socialismo são problemas que não existem para a teoria neoclássica pura. Por exemplo, a moeda não existe no modelo que sintetiza a teoria neoclássica em sua forma pura, o modelo de equilíbrio geral, e conseqüentemente a inflação, a deflação e o ciclo de negócios não existem no modelo de equilíbrio geral.


A teoria austríaca assume os seguintes pressupostos em relação a descoberta espontânea:


- O agente não tem o conhecimento necessário para maximizar sua utilidade, ou seja, além de não ter informação perfeita ele não tem conhecimento perfeito do domínio da incerteza, ou seja, da informação que ele precisa para agir de forma ótima. Em outras palavras, mesmo se contabilizando o custo da coleta de informação o agente falha em agir de forma a maximizar a utilidade.


- O agente exibe a tendência à descobrir o que ele precisa saber para maximizar a utilidade com a passagem do tempo. Ou seja, com a passagem do tempo a teoria austríaca converge para a teoria neoclássica. Tanto que alguns economistas apelidaram a teoria austríaca de "a economia do tempo e da ignorância".


- Se assumirmos que os dados do mercado estão fixos, os agentes gradualmente vão descobrir esses dados e o sistema econômico vai tender ao equilíbrio geral, com todas as suas características (mercados futuros, alocação ótima dos fatores, inexistência de moeda). Como os dados do mercado nunca são fixos, mas sim estão em constante mudança devido justamente a ação dos agentes que falharam em levar em conta os efeitos que elas tem sobre os dados do mercado, justamente porque eles tem uma percepção imperfeita desses dados.


- A descoberta espontânea e a busca consciente por informação (coleta de informação, ou produção de informação) existem de forma misturada na realidade. Ou seja, no mundo real o aprendizado sempre tem uma dimensão de busca consciente por informação e uma dimensão de geração não antecipada de informação. Alguns economistas criticaram o conceito de descoberta espontânea se baseando em exemplos onde o agente planeja a probabilidade que ele vai ter de descobrir algo, ou seja a descoberta espontânea não é realmente espontânea e conseqüentemente a teoria austríaca falha em quebrar a caixa walrasiana. Por exemplo, se tu andar na rua a chance de descobrir um produto a venda que tu queira comprar é maior do que se tu tivesse ficado em casa. Ou seja, os agentes antecipam as descobertas que eles farão. Mas na realidade a descoberta espontânea e a descoberta planejada existem em forma misturada e por essa razão é impossível formular um exemplo de descoberta espontânea pura.


Tanto a informação subjetiva e a informação objetiva são importantes para a teoria econômica. Embora a informação subjetiva tenha um impacto muito maior sobre a econômica porque ela viola os princípios básicos da teoria neoclássica (ou seja, quebra a caixa walrasiana e permite que fenômenos impossíveis para agentes neoclássicos ocorram). Na teoria austríaca o processo de aprendizagem ocorre da seguinte forma: Os agentes gradualmente percebem o que eles precisam saber para que possam agir com sucesso, então eles traçam um plano de coleta dessa informação que foi percebida como relevante, com o processo de coleta de informação o agente aprende não somente o que ele esperava aprender mas também informação não esperada, ou seja, descoberta espontaneamente, essa informação inesperada acaba gerando outro plano de coleta de informações. E é basicamente assim que o processo de mercado funciona.


Se os dados do mercado fossem fixos o que ainda não foi percebido no presente iria se esgotar com a passagem do tempo, então teríamos a convergência para o equilíbrio geral e a teoria neoclássica serviria de aproximação realidade.


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