3 de julho de 2008

Ensaio - A natureza da competição econômica - parte 2

Continuação da Parte 1

Na parte 1 eu dei uma visão geral das teorias da competição, da teoria neoclássica e da teoria austríaca (processo de mercado) e expliquei porque que na teoria austríaca o processo de determinação dos preços é feito pelos indivíduos que descobrem possibilidades de transações mutuamente benéficas não realizadas, também chamados de empresários. Ou seja, pela teoria austríaca da competição, a competição é um processo de descoberta de oportunidades de troca mutuamente benéficas que ainda não foram realizadas. Existe rivalidade na teoria austríaca porque cada empreendedor tem interesse em descobrir as oportunidades de troca não realizadas antes dos outros, já que a descoberta e a realização dessa troca reduzem a quantidade de trocas mutuamente benéficas que ainda não foram realizadas, reduzindo o potencial de lucro. Já na teoria neoclássica não existe rivalidade entre os agentes, na verdade os planos de ação de cada agente são analisados de forma separada, em relação a um pano de fundo fixo de preços de equilíbrio, onde os planos dos agentes estão plenamente coordenados (hipótese que é assumida de antemão).


A função social da propaganda e da diferenciação dos produtos


Numa economia de mercado a propaganda/publicidade é uma característica essencial do funcionamento do mercado. Mas muitos economistas criticam a propaganda, já que ela supostamente representa uma má alocação de recursos, já que esses recursos utilizados na produção de publicidade poderiam ser utilizados produtivamente na produção de bens uteis aos consumidores, ou invés de servir para criar uma necessidade artificial na mente do consumidor. Por isso muitos economistas condenam a existência da publicidade devido a sua natureza ineficiente.


Mas essa noção de que a propaganda seja ineficiente parte do entendimento incorreto de sua natureza. Os consumidores compram os produtos que eles acham que vão melhorar seu bem estar. Isso significa que eles estão interessados em saber quais são as características dos produtos ofertados no mercado para que possam escolher de forma racional os produtos que vão comprar. Assim existe uma demanda por informação em relação as características dos produtos, uma informação que é suprida pela publicidade.


Mas esse argumento sofre de um problema, porque a publicidade tem que ser tão chamativa/colorida/agressiva? Já que é mais caro fazer uma publicidade chamativa do que escrever textos de tinta preto num livro que descreve produtos. A publicidade é uma ferramenta utilizada para lidar com a falta de conhecimento dos consumidores em relação a sua própria ignorância. Se os consumidores soubessem que tipo de informação eles precisariam para saber as características dos produtos que eles compram, eles iriam demandar apenas informação pelo menor custo possível (ou seja, livros que dizem as caraterísticas dos produtos), o problema é que os consumidores não tem o conhecimento perfeito do domínio de incerteza que enfrentam.


A publicidade é chamativa para que os consumidores percebam que existem produtos que eles não conhecem, e não sabem que não conhecem, e assim possam reajustar seus planos de consumo para consumir de forma mais eficiente do que consumiam antes. Como a diversidade de bens de consumo possíveis de serem consumidos e produzidos é ilimitada, os bens produzidos nunca serão os melhores devido a incapacidade dos empresários de produzirem esses bens ótimos, mas na verdade eles vão produzir os bens que eles esperam que sejam os melhores, o problema é que as expectativas nunca correspondem a realidade de forma absoluta. E como os consumidores não tem conhecimento perfeito dos bens de consumo disponíveis e seu conhecimento em relação ao grau de imperfeição desse conhecimento é também imperfeito, então suas expectativas em relação a gama de bens de consumo disponíveis são incorretas e assim eles vão consumir bens com recursos que poderiam ser gastos de uma maneira melhor. A publicidade tem como função melhorar o grau de percepção dos consumidores em relação aos bens disponíveis no mercado, reduzindo a ineficiência de suas escolhas. Os empreendedores que descobrirem como fazer com que os consumidores descubram melhores possibilidades de consumo através da publicidade irá auferir maiores lucros.


Outra teoria sobre a ineficiência da publicidade diz que como a publicidade gera preferência por marcas e isso acaba reduzindo a elasticidade das curvas de demanda das empresas que vendem o produto de marca. Já que o consumidor não vai reduzir muito o seu consumo desse produto se o preço subir, porque ele é um produto de marca e assim os produtos de outras empresas são substitutos imperfeitos. E a menor elasticidade da demanda gera a distorção monopolística no mercado reduzindo sua eficiência, pelos motivos que expliquei na parte 1 desse artigo. E também expliquei na parte 1 do artigo que a capacidade dos agentes de influenciar os preços não tem relação com a proporção da oferta/demanda com que ofertam o bem, mas sim devido a sua capacidade empreendedora, ou seja, a capacidade de perceber possibilidades de ganhos mútuos que não haviam sido percebidas antes por outros agentes ou por ele mesmo.


Diferenciação de produtos


É um fato óbvio que as empresas diferenciam os produtos que vendem no mercado. Ou seja, existem muitas marcas de carros por exemplo. Alguns economistas criticam essa diferenciação porque ela tem um custo, e como tem um custo é ineficiente. Custa produzir centenas de marcas de pasta de dente diferentes, por isso seria melhor poupar esse custo produzindo apenas um tipo de pasta de dente e utilizar os recursos economizados para produzir mais pasta ou produzir outras coisas, resultando na redução do preço da pasta de dente.


Mas se produzir várias marcas diferentes tem um custo que os consumidores não estão dispostos a pagar, então os empresários estão errando em diferenciar os produtos que vendem no mercado. E o erro implica na possibilidade de lucro, se um empreendedor descobre que os consumidores não estão dispostos a pagar mais pelos produtos não diferenciados, então ele vai produzir produtos não diferenciados, que com custos menores, vai render lucros, logo as outras empresas vão deixar de diferenciar, ou vão ser compradas ou vão falir. Isso significa que diferenciar produtos é uma resposta a demanda do consumidor por diversidade.


Mas para alguns economistas existe uma outra causa de ineficiência na diferenciação dos produtos: Se cada empresa tem uma família de produtos diferentes no mercado, ou seja, seus produtos são substitutos imperfeitos do produtos da outras empresas, então a elasticidade da demanda não é perfeita e a empresa influencia o preço manipulando as quantidades ofertadas de forma a maximizar seu lucro (mesmo argumento da marca). Como vimos na parte 1 do artigo, esse argumento falha porque a ineficiência do monopólio não existe devido a elasticidade das curvas de demanda/oferta, mas sim devido a capacidade limitada do indivíduo em perceber todas as possibilidades de trocas mutuamente benéficas.


A diferenciação de produtos existe devido a dois fatores. Primeiro porque os consumidores demandam variedade de produtos, já que cada indivíduo tem preferências diferentes e demanda produtos diferentes, além de que uma mesma pessoa também vai demandar uma variedade de produtos substitutos.


O segundo motivo é a existência de incerteza em relação aos produtos que os consumidores preferem. As empresas criam muitos produtos diferentes para descobrir o que os consumidores preferem, dessa grande variedade de produtos lançados a todo momento alguns dão certo, outros dão errado, os que dão certo tem sua produção continuada, os que dão errado tem sua produção cancelada. Com o passar do tempo a produção sempre vai tender a servir aos consumidores de forma mais eficiente com produtos melhores do ponto de vista das preferências deles. E esse processo de redução da ineficiência (ou seja, recursos tendem a ser alocados na produção dos produtos que os consumidores desejam com maior urgência) ocorre devido a liberdade de competição do mercado, se uma empresa coloca produtos que os consumidores gostam menos do que produtos que poderiam ser produzidos pelo mesmo custo (devido a erro de antecipação dos gostos dos consumidores), então logo outro empreendedor vai descobrir que o mercado não está sendo ber servido e vai produzir um produto que melhor satisfaz as preferências dos consumidores. Esse empreendedor vai comprar os fatores de produção por preços maiores do que os preços que os consumidores estariam dispostos a pagar pelos produtos produzidos pela outra empresa, o que resulta na falência do empreendedor que antecipou relativamente mal as preferências dos consumidores.


Eficiência dinâmica e eficiência estática


Na teoria econômica ortodoxa a eficiência é um conceito estático. Ou seja, ou o modelo apresenta resultados eficientes ou resultados ineficientes. Esse conceito de eficiência é baseado no individualismo metodológico e no subjetivismo de valor. Mas ele é estático, porque não leva em consideração a natureza mutante da mente humana, ou seja, que com a passagem do tempo o homem vai descobrindo coisas, coisas que ele não sabia antes, que ele não sabia que não sabia e que ele não esperava descobrir. Assim não se pode aplicar esse conceito estático quando analisamos a natureza dinâmica da realidade, ele serve mais para se compreender o resultado de modelos de equilíbrio.


Eficiência na teoria ortodoxa ocorre quando temos uma situação onde nenhum agente pode ser beneficiado sem que outro agente seja prejudicado. E uma alocação é mais eficiente do que outra quando um ou mais agentes são beneficiados em relação a segunda alocação sem que outro(s) agentes sejam prejudicados. Por exemplo, 2 agentes, um tem uma banana e outro tem uma maça, mas o primeiro prefere a maça e o segundo prefere a banana. Se eles trocarem a banana pela maça ambos vão terminar numa posição melhor, assim temos uma alocação mais eficiente do que a primeira e essa é a alocação eficiente desse sistema com 2 agente, 1 banana e 1 maça. Podemos notar que eficiência é definida como sendo uma situação onde todas as trocas mutuamente benéficas são realizadas.


Mas na realidade é obvio que todas as trocas mutuamente benéficas não são realizadas simplesmente porque as pessoas não tem plena percepção de todas as possibilidades de troca. Logo, o mercado nunca será eficiente pela definição ortodoxa de eficiência. Mas a moderna escola Austríaca utiliza uma definição diferente de eficiência, uma definição dinâmica. Essa definição é chamada de coordenação, ou tendência a coordenação, o que importa não é a eficiência da alocação no momento, mas sim a tendência com que essa alocação tende a se tornar mais eficiente ao longo do tempo. Se assumirmos que os dados do mercado sejam fixos (só para compreendermos o conceito, já que eles não podem ser fixos devido as mudanças externos e as próprias mudanças causadas pelas ações dos agentes), com o passar do tempo os agentes vão descobrir esses dados e reajustar seus planos de ação de forma a cada vez mais se coordenarem com esses dados. No limite temos uma situação ótima do ponto de vista neoclássico, que é uma situação onde o potencial de coordenação é esgotado.


O que determina a qualidade de um sistema econômico é a sua capacidade de gerar tendências equilibrativas. E quanto mais livres forem os agentes para explorar possibilidades de lucro ainda não exploradas, maior serão as forças dessas tendências equilibrativas, o que significa que maior liberdade econômica resulta em uma tendência mais forte a correção das ineficiências do sistema econômico.


A natureza do lucro puro


Na teoria ortodoxa o lucro puro não existe. Ou seja, a teoria econômica padrão, ensinada nas universidades do mundo todo, não admite a existência de lucro, ou se admite, considera o lucro como sendo uma ineficiência (nos modelos dos economistas intervencionistas) ou a remuneração do trabalho de alocar os fatores de produção (nos modelos mais sérios).


O que é o lucro puro? O lucro (social) puro é a receita derivada da compra e venda de um mesmo produto por preços diferentes, em diferentes partes de um mercado. Na teoria neoclássica os preços de um mesmo produto são uniformes pelo mercado. Agentes racionais não vão comprar um produto por 10 se podem comprar por 5, então não existe possibilidade de comprar um produto por 5 e revende-lo por 10, já que o agente que pagou 10 por algo que se pode comprar por 5 é, obviamente, irracional.


Na teoria de processo de mercado o lucro emerge quando o agente percebe que pode realizar uma troca que ainda não foi realizada porque nenhum outro agente percebeu essa possibilidade de ganho mútuo antes. Ou seja, como os agentes não tem uma percepção perfeita da realidade econômica que os cerca, eles podem agir de forma irracional (pelo definição neoclássica de racionalidade) e desse modo, é possível que um agente pague 10 por algo que pode ser comprado por 5, se ele não souber que não sabe que existem preços menores por essa mesma mercadoria em outras partes do mercado. Com o passar do tempo essas possibilidades de lucro tendem a ser descobertas e exploradas. O equilíbrio geral neo-walrasiano representa uma situação de esgotamento das possibilidades de lucro.

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