8 de agosto de 2008

Ensaio - Sobre a teoria informacional de Stiglitz e sua interpretação incorreta de Hayek

Stiglitz e outros economistas menos conhecidos desenvolveram uma teoria informacional a partir da década de 70 que se tornou a teoria padrão da informação para o mainstream atual. Nessa teoria informacional temos modelos que buscam formalizar matematicamente as contribuições de Hayek para a economia da informação. O problema é que, segundo os atuais seguidores de Hayek, a tentativa formalização dos insights que ele desenvolveu levou a extração do que é mais importante na teoria hayekiana do conhecimento, tornando a interpretação formal da teoria de Hayek vazia, isso ocorreu devido ao molde teórico do mainstream, que não permite que a racionalidade neoclássica seja transcendida pelos agentes econômicos através da passagem do tempo.


O exemplo, que carateriza a contribuição mais importante de Hayek onde houve tentativa de formalização é a seguinte: Hayek disse que os preços servem como transmissores de informação, no sentido que eles refletem o nível de escassez dos vários bens e servidos vendidos no sistema econômico. Dessa maneira os agentes não precisam conhecer os bens que os outros agentes possuem, mas apenas o sistema de preços da economia, para conseguir ajustar suas ações em relação as ações dos outros agentes. Tanto que na teoria de equilíbrio geral os agentes só precisam conhecer os preços e ajustar seu plano de ação em relação ao sistema de preços, que temos uma perfeita coordenação dos planos de todos os agentes econômicos, com suas conseqüentes características de eficiência ótima na alocação dos fatores.


Na economia informacional moderna a informação é tratada como sendo um bem como qualquer outro. Problemas informacionais são causados pela escassez de informação, devido ao custo de coleta por informação. Ou seja, os agentes racionais sabem que precisam de informação para fazer suas escolhas, dessa forma eles coletam informação através da alocação de tempo de trabalho para a busca por informação. A quantidade de informação produzida é determinada pela relação entre o custo marginal da coleta de informação e pelo benefício marginal da informação coletada. O agente vai coletar informação até que o custo marginal se iguale ao benefício marginal da informação coletada. O sistema de preços funciona como um mecanismo de transmissão de informação, que economiza os custos de coleta de informação por parte dos agentes. Se temos preços de equilíbrio competitivo, então temos uma situação onde os agentes não precisam coletar informação sobre os bens e preferências dos outros agentes, porque o sistema de preços transmite toda informação relevante. Assim se minimizam os custos informacionais. Essa foi a interpretação de alguns economistas do mainstream para o argumento de Mises e Hayek sobre a importância do sistema de preços no debate do calculo econômico. Foi interpretado que Mises e Hayek disseram que como o sistema de preços não existe no socialismo, o socialismo não funcionaria devido aos imensos custos informacionais que emergiriam numa economia sem preços.


Mas Stiglitz argumentou que como a informação tem um custo e como o sistema de preços não vem do nada, mas é produzido pela forças de oferta e demanda gerada pelos agentes econômicos, então temos o seguinte problema: Digamos que um certo investimento num ativo qualquer tenha retorno r, e temos um parâmetro que determina a rentabilidade do investimento e que pode ser conhecido, n. O parâmetro n pode ser conhecido por um certo custo. O preço do ativo com retorno r no mercado depende da informação que os agentes tem em relação ao valor de r, já que se nenhum agente conhece o valor de r, então o preço do ativo se torna muito menor do que o retorno que ele pode proporcionar, o que incentiva a busca pela informação que informa o retorno que pode ser obtido do investimento. Se alguns agentes sabem que o ativo tem o retorno r, eles vão demandar o ativo se o seu preço for menor que o preço que ocorreria com informação perfeita. Quanto mais agentes souberem do valor de n, mais próximo o valor do ativo se aproximará de seu valor de mercado com informação abundante (sem custo). Como a busca pela informação é custosa o preço do ativo no equilíbrio não vai se igualar ao preço que ele teria se a informação fosse perfeita. No modelo alguns agentes acabam coletando informação e outros agentes não, já que no equilíbrio o custo da coleta da informação de n é igual a diferença de preço do ativo no mercado e de sua rentabilidade. Os preços então não transmitem informação de forma perfeita, já que a informação tem um custo de coleta devido a sua escassez. E como a informação abundante não precisa de um sistema de preços o sistema de preços é considerado imperfeito. Além disso, como os agentes não tem um custo de utilizar o sistema de preços, enquanto que os agentes coletores de informação em relação a n tem o custo de coleta, os agentes que utilizam o preço do ativo para se coordenar estão sendo free riders dos coletores, que fazem os preços ficarem onde estão. Ou seja, nesse teoria a coleta de informação gera uma externalidade positiva devido ao sistema de preços. Logo menos informação é coletada do que seria ótimo, e o sistema de preços deixa de funcionar de forma perfeita. Logo o livre mercado também sofre de problemas informacionais como o socialismo, embora de menor intensidade, e o sistema ideal seria um mercado regulado, onde a ação estatal resolveria problemas gerados pela informação imperfeita, nesse caso o estado poderia coletar a informação sobre o retorno de n e revelar esse dado no mercado, fazendo com que os preços passem e refletir a rentabilidade r com perfeição, já que os agentes individuais jamais iriam revelar a informação sobre n, porque iriam perder a possibilidade de lucrar com ela, explorando a diferença entre a rentabilidade do ativo e seu preço. A revelação de n no mercado iria provocar um ajuste automático do preço do ativo com relação a sua rentabilidade.


Essa teoria defendida por Stiglitz possuí vários problemas, tanto se for analisada do ponto de vista neoclássico ou mesmo austríaco. Além de ignorar o fato de que os planejadores do estado, que supostamente iriam resolver os problemas gerados pela informação imperfeita, não são seres que agem com o único objetivo de maximizar a eficiência do sistema econômico mas também respondem a incentivos, e como a teoria da escolha publica mostra, o estado raramente (ou mesmo nunca) possuí incentivos para agir de forma a melhorar a eficiência do mercado.


Podemos criticar essa teoria de falha de mercado utilizando 3 argumentos separados e cada um é forte o suficiente para derrubar a teoria. Primeiro a objeção que pode ser feita a partir da perspectiva do mainstream: Os agentes demandam que o sistema de preços reflitam os dados do mercado. Logo eles estão dispostos a pagar pelo serviço dos agentes que geram a externalidade positiva que é gerada pela coleta da informação n, ou seja, não temos externalidade gerada na coleta da informação sobre a rentabilidade do ativo porque os agentes que coletam essa informação são pagos pelos outros agentes para que eles façam com que o sistema de preços reflita os dados do mercado. Ou seja, através da liberdade de contrato, transações são realizadas até que os agentes chegam numa alocação eficiente. Esse é o argumento neoclássico para o desenvolvimento de uma teoria do empreendedorismo baseada puramente na teoria ortodoxa. O empreendedor é justamente o agente coletor de informação que é pago pelos outros agentes para coletar a informação e transmiti-la através do sistema de preços.


Mas além desse argumento neoclássico podemos aprofundar a critica a teoria informação a partir do genuíno entendimento do problema do conhecimento formulado por Hayek. Como Hayek demonstra, o problema do conhecimento não é causado pela escassez de informação, ou seja, não é um problema gerado pelos custos de informação. Mas é na verdade um problema gerado pela natureza diferenciada do conhecimento estrutural em relação aos bens (o que incluí o conhecimento paramétrico). A relação entre os custos e os benefícios das escolhas que os agentes tomam só está definida quando os agentes tem conhecimento perfeito das estrutura dos problemas com que eles estão lidando. Ou seja, se os agentes conhecem a estrutura do problema, mesmo que não conheçam o valor preciso de seus parâmetros, os agentes conseguem maximizar a utilidade, e assim o sistema consegue atingir o equilíbrio, logo, os sistema sempre alcança um resultado ótimo se contabilizarmos os custos de transação e informação no mercado. Resultados de mercado sub ótimos só podem ser atingidos se os agentes falham em maximizar a utilidade. A teoria econômica desenvolvida em parte por Hayek lida justamente com essas situações de desequilíbrio. Por exemplo, no caso do ativo no modelo, se existe uma informação n que informa a rentabilidade do ativo, então o problema está no fato dos agentes não perceberem a existência da possibilidade de coleta dessa informação, ou seja, está no desconhecimento da estrutura do problema com que eles estão lidando. Se algum agente descobrir que pode coletar a informação n e lucrar com isso, então esse agente que descobriu a existência da informação que é o empreendedor e não os agentes que possuem vantagem comparativa no trabalho de coleta de informação.


Ou seja, o modelo é também refutado pela inexistência do conhecimento da existência de informação em relação parâmetro n, que é o verdadeiro problema, e não a minimização dos custos de coleta da informação sobre o parâmetro. O segundo problema é resolvido através de transações, que vão ocorrer se algum agente perceber a existência da informação em primeiro lugar. O terceiro problema reflete a falta de entendimento do processo de determinação dos preços, que é o mesmo problema que as teorias de concorrência imperfeita sofrem, o problema é que se um agente percebe a existência de uma possibilidade de lucro devido a informação assimétrica (na verdade conhecimento estrutural assimétrico) a exploração dessa possibilidade de lucro não implica em ineficiência. Ou seja, pela teoria convencional a existência de transações onde temos uma diferença de preço de um mesmo bem em diferentes partes do mercado é reflexo de uma situação ineficiente, porque uma situação eficiente iria liquidar a existência de transações com preços diferentes para um mesmo bem. Por exemplo, se temos uma possibilidade de lucro que emerge da diferença de preço entre um bem que é vendido por x num local e por x+y em outro local, então a plena eficiência é alcançada quando os agentes demandam o bem elevando o preço no primeiro local e ofertam o bem no segundo local, até que o preço do bem no primeiro local iguale o preço do bem no segundo local. Se transações são efetuadas com lucros puros então nós temos ineficiência.


Na verdade essa noção de eficiência está errada, devido a incapacidade dos economistas ortodoxos de perceberem que o processo de ajuste de preços em relação a oferta e a demanda não é um processo automático, mas sim um processo que ocorre devido a mudança de expectativas por parte dos compradores e vendedores dos bens dos preços que os agentes vão aceitar nas transações. E se assumirmos que apenas os empreendedores são alertas, temos então uma situação onde a compra de bens pelo preço x num mercado e a venda desses bens pelo preço x+y no outro mercado é eficiente, porque todas as transações mutuamente benéficas são realizadas e as possibilidades de lucro foram esgotadas (ocorreram transações lucrativas, mas não existem mais transações lucrativas não exploradas no mercado). Um exemplo ajudaria a compreender melhor o argumento:


Temos 3 agentes, A, B e o empreendedor puro, o agente A possuí 1y e o agente B possuí 5x. O agente A valora o y em 2x e o agente B valora y em 5x. Se o empreendedor puro descobre as preferências e bens dos agentes A e B, ou mais precisamente, se descobre a relevância da informação sobre as preferências e bens dos agentes A e B (assumindo que após a descoberta da relevância dessa informação o processo de coleta seja grátis, ou seja, assumimos que a informação não é escassa) para a formulação de um plano de ação que possibilite que ele consiga maximizar sua utilidade com relação aos dados e a situação presente do modelo (os parâmetros que um determinado agente precisa perceber como relevantes na formulação de seu plano de ação são determinados pelos parâmetros que os outros agentes ainda não perceberam, no caso os outros agentes não perceberam nada, logo é relevante para o empreendedor puro que ele perceba todos os dados do modelo), então o empreendedor puro vai agir de modo a explorar essa possibilidade lucrativa, ele vai comprar y de A por pelo menos 2x e vender o y para B por até 5x, ou seja, o empreendedor puro vai explorar uma possibilidade de lucro com potencial total de 3x. A e B vão aceitar trocar pelos termos oferecidos pelo empreendedor porque eles não perceberam a existência dos parâmetros estruturais do modelo relevantes para o processo de formulação de seus planos de ação como o empreendedor percebeu, ou seja, o empreendedor que determina os preços devido a sua capacidade de perceber possibilidades de trocas que ainda não foram percebidas. Nota-se que nesse caso temos um resultado eficiente já que as possibilidades de ganho mutua foram esgotados no modelo e o empreendedor puro teve lucro, na verdade foi o maior beneficiário das transações (já que foi ele que descobriu a possibilidade de ganho com as transações). A e B são passivos no modelo e não conseguem agir (no sentido de perceber com a passagem do tempo que podem passar de um estado de menor satisfação para um estado de maior satisfação) porque não são alertas, já o empreendedor é alerta. Se ninguém é alerta o sistema econômico não apresenta tendências equilibrativas.


No mundo real o processo de ajuste de preços pela oferta e a procura é efetuado através do processo de evolução da percepção dos agentes com relação aos parâmetros da realidade que são relevantes para o processo de formulação de planos de ação desses agentes. A teoria ortodoxa falha em compreender a natureza subjetiva do processo de ajuste de preços no mercado e por isso falha em perceber que uma possibilidade de lucro ainda não explorada não precisa se dissolver, ou seja, os preços de um mesmo bem em duas ou mais transações diferentes não precisam se igualar para que tenhamos uma alocação eficiente. No caso do problema que estamos lidando os preços de mercado não precisam se igualar ao preços de equilíbrio competitivo para que tenhamos uma transmissão de informação, mas na verdade é o fato de existirem discrepâncias nos preços de mercado que a capacidade de percepção de informação estrutural dos agentes é utilizada para gerar tendências equilibrativas no sistema econômico. Ou seja, é o fato do sistema de preços ser imperfeito que leva a geração de tendências para a correção das alocações ineficientes do mercado. O sistema de preços tem como função permitir o funcionamento de uma divisão intelectual do processo de descoberta por parte dos agentes. Embora Hayek nunca tivesse afirmado que a função do sistema de preços era reduzir os custos de transmissão da informação (mas sim tornar relevante para todos os agentes a percepção da existência de informação ainda não coletada para realização de transações mutuamente benéficas) suas idéias foram mal compreendidas a ponto da maioria dos economistas imaginarem que a contribuição de Hayek para a economia informacional era justamente essa.

2 comentários:

José Octavio Dettmann disse...

Muito interessante o seu texto sobre a teoria da informação, Juliano! Eu confesso que tenho alguma dificuldade para compreender a questão. Será que você poderia ser um pouquinho mais didático, tornar as coisas um pouco mais claras pra mim? Obrigado

Juliano Torres disse...

Detmann, esse artigo é do Rafael Guthmann...ehehehehe
Obrigado pela visita. Escreveu mais alguma coisa? Estava sem pc, mas agora estou de volta.
Abraços