3 de outubro de 2008

Ensaio - Três perspectivas dos problemas macroeconômicos

[1] Os problemas macroeconômicos são os problemas relacionados com os desajustamentos internos de um sistema econômico que aparecem nos agregados estatísticos. São problemas, segundo a maioria das teorias a respeito do temo, da ordem da coordenação dos planos dos agentes, ou seja, problemas que emergem no desequilíbrio do sistema econômico. Existem três perspectivas principais em relação a natureza dos problemas macroeconômicos. Primeiro temos a perspectiva neoclássica pura, representada por economistas como Lucas, essa perspectiva pode ser caracterizada pela expressão "equilíbrio sempre", que se foca nos problemas macroeconômicos por uma perspectiva completamente fundada na teoria microeconômica padrão. Temos também a perspectiva austríaca representada por economistas como o bom e velho Hayek, caracterizada pela expressão "tendências equilibrativas" e a terceira perspectiva dos keynesianos, que embora tenha várias fragmentações pode ser representada por economistas como James Tobin, Paul Krugman e até Milton Friedman. Essa perspectiva é caracterizada pela expressão "equilíbrio nunca" ou "desequilíbrio".


[2] Na perspectiva neoclássica o mercado é visto como uma solução para um conjunto de equações simultâneas. Ou seja, temos agentes que maximizam a utilidade em relação a um sistema de preços e a partir disso escolhem quantidades para demandar e ofertar (nesse caso é quando a demanda é menor do que a dotação inicial do agente). Se assume que a totalidade das ofertas e procuras seja concluída com sucesso e, conseqüentemente, que o sistema esteja numa situação onde não existem expectativas frustradas e a totalidade dos planos de ação dos indivíduos é concluída com sucesso. Ou seja, os neoclássicos constroem um modelo que assume de antemão que temos plena coordenação dos planos dos indivíduos, já que se não temos plena coordenação é porque o vetor de preços não satisfaz as condições do sistema de equações simultâneas do modelo. Essa perspectiva teórica é chamada de "equilíbrio sempre" ("equilibrium always").


[3] Para os neoclássicos puros os problemas macroeconômicos sempre tem origem nos dados do mercado, já que como temos sempre plena coordenação dos planos dos agentes então fenômenos como o desemprego involuntário, que é definido como uma situação onde os agentes oferecem seu trabalho com a expectativa de que sua oferta seja aceita pelo mercado mas suas expectativas são frustradas e ele não consegue o que ele havia planejado conseguir, não podem existir pela própria solução das equações de sua teoria econômica. Isso significa que somente mudanças nos dados do mercado vão conseguir gerar flutuações macroeconômicas ao longo do tempo. A teoria de ciclos de negócios mais antiga que existe nessa linha é a teoria das manchas solares do Jevons. Segundo a teoria das manchas solares a variação na radiação solar que incide sobre a terra provoca variações na produtividade da agricultura causando flutuações sobre o nível geral da atividade econômica. As teorias mais modernas são similares a essa teoria, onde a principal diferença é o grau de sofisticação analítica.


[4] Na perspectiva austriaca temos um mercado que funciona através da passagem do tempo. Os agentes vão descobrindo possibilidades de trocas mutuamente benéficas e vão realizando essas trocas. Logo se forma um sistema de preços para os bens transacionados no mercado e esse sistema de preços possuí discrepâncias. Ou seja, como os agentes não sabem que estão vendendo algo para alguem por um preço menor do que o preço que outros indivíduos em outra parte do mercado estão pagando para adquirir o mesmo bem. Empreendedores que descobrem essas discrepâncias no sistema de preços são os agentes que geram uma tendência equilibrativa no sistema econômico. Segundo essa perspectiva o equilíbrio é uma tendência que se manifesta no mercado com a passagem do tempo. Se assumirmos que os dados do mercado não sofram mudanças não antecipadas o sistema vai convergir para um equilíbrio walrasiano e a teoria econômica austriaca converge para a teoria neoclássica.


[5] A teoria macroeconômica austriaca é baseada no processo de descolamento das expectativas dos agentes em relação aos dados subjacentes do mercado. Esse descolamento das expectativas ocorre quando temos uma expansão de crédito que artificialmente reduz a taxa de juros. Essa redução artificial na taxa de juros faz com que o mercado funcione como que se o volume de bens de capital disponíveis para serem investidos seja maior do que realmente é e do que os consumidores estejam dispostos a pagar com a redução no seu consumo. Os empreendedores então passam a agir como que se o sistema estivesse descolado da realidade e traçam planos de investimento onde a quantidade de bens de capital utilizados é maior do que a quantidade real. No final das contas os agentes acabam aprendendo que o crédito está sendo expandido e ajustam suas expectativas de aumento de preços, o que significa que as expectativas que estavam descoladas da realidade voltam a realidade e o processo de retorno a situação normal é chamado de crise econômica. É uma crise porque os agentes descobrem que estão mais pobres do que pensavam e isso significa que eles haviam traçado planos de ação levando em conta sua riqueza esperada, que se revelou ser superestimada. Recursos são desperdiçados e a descoberta desses malinvestimentos dos fatores de produção caraterizam a crise econômica. Nota-se que essa teoria começa com um mercado que está próximo do equilíbrio e que sofre uma expansão de crédito, que desajusta o sistema (o periodo de boom), os agentes então vão descobrir os desajustes (crise) e vão realocar os fatores para usos que satisfazem as preferências dos consumidores (recuperação), ou seja, é uma teoria de afastamento do equilíbrio onde que as expectativas dos agentes são puxadas de volta para as expectativas de equilíbrio devido ao funcionamento do processo de mercado. Essa teoria é compatível com a teoria microeconômica austríaca mas não é compatível com a teoria microeconômica padrão.


[6] Já segundo a perspectiva Keynesiana os problema macroeconômicos são analisados através da ótica do desequilíbrio. Ou seja, se assume que os mercados não estão em equilíbrio (teoria neoclássica pura) e também se assume que o desequilíbrio é digamos assim, uma posição de equilíbrio, o que significa que o mercado não tende a convergir para o equilíbrio (teoria austríaca). Os economistas Keynesianos assumem que os preços são rígidos e analisam o mercado a partir de choques na demanda agregada causados por mudanças exógenas nas expectativas dos agentes, ou seja, mudanças que vem de fora do sistema econômico. Se os agentes tem expectativas negativas em relação ao futuro da economia eles vão reduzir seus gastos no presente, reduzindo a demanda agregada e gerando uma redução na produção real do sistema devido ao fato de que os preços não se ajustam em relação a essa contração na demanda agregada.


[7] Eu considero esse tipo de análise bem fraca porque não é realístico supor que os mercados estão num “desequilíbrio de equilíbrio”. E embora a teoria novo clássica também seja irrealística ela pelo menos é compatível com os princípios lógicos da teoria econômica moderna. Já a teoria Keynesiana em sua versão mainstream é uma teoria dupla, que é compatível no chamado “longo prazo” com a teoria econômica padrão e incompatível no “curto prazo”. Onde a definição do que é exatamente longo prazo e curto prazo é um tanto indefinida. Na sua versão underground ou pós-keynesiana encontramos um tratamento mais consistente para as bases teóricas que suportam o edifício macroeconômico keynesiano. Mas essa corrente de seguidores do fantasma de Keynes comete erros graves no sentido de tratar os problemas causados pela descoordenação que existe devido a incerteza através da análise de agregados. Ou seja, os problemas macroeconômicos são refletidos nos agregados mas não são causados por alguma relação direta entre eles. Os problemas macroeconômicos como o desemprego involuntário são causados pela incapacidade dos indivíduos em antecipar perfeitamente as conseqüências de suas escolhas. E a força que reduz os erros de antecipação dos indivíduos é o processo de mercado analisado pela teoria austríaca.

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