19 de janeiro de 2009

Ensaio - Transações ao longo do tempo

Por que as transações ocorrem em fluxos ao longo do tempo?


[1] Um dos maiores mistérios da economia moderna é explicar porque as transações ocorrem em fluxos ao longo do tempo. Ao seja, é explicar porque que as lojas vendem produtos todo mês, ao invés de só entregarem bens por encomenda, onde todas as encomendas já foram feitas nos dias em que as pessoas que fizeram a encomenda nasceram. Como se sabe bem, nos modelos matemáticos dos economistas modernos ou todas as transações são executadas no tempo 0, como no clássico modelo de equilíbrio geral neo walrasiano, ou o modelo assume que a cada período de tempo um determinado numero de compradores e vendedores entram no mercado. De qualquer maneira não é explicado porque esses compradores e vendedores entram no mercado e porque que a realidade se diferencia do modelo de equilíbrio geral no sentido que os bens não são todos encomendados no tempo 0.


[2] No modelo econômico mais importante para a moderna economia matemática, o modelo de equilíbrio geral, como já foi dito anteriormente, todas as transações são efetuadas no tempo 0. No modelo existem mercados futuros para todas as mercadorias, assim cada mercadoria é classificada pelo seu tipo e pelo tempo que será produzida/consumida. No tempo 0 todos os agentes compram e vendem as mercadorias que serão produzidas por todo o tempo futuro através de “papéis” que as representam. Isso significa que já de cara os planos de compra e venda de todas as mercadorias estão plenamente coordenados no tempo zero, e por isso toda a produção já estará vendida antes mesmo de começar a ser produzida. Eu considero que um modelo de equilíbrio rigoroso deve realmente assumir que todas as transações são efetuadas no tempo 0 e que no equilíbrio não existe razão para efetuar transações mais tarde, já que uma alocação de equilíbrio é a rigor pareto ótima, e uma alocação pareto ótima é uma alocação onde todas as trocas potenciais já foram realizadas. Não faz sentido dois agentes que podem realizar uma troca mutuamente benéfica e tem o conhecimento necessário para realiza-la que eles não realizem a troca agora e digamos que o vendedor planeje vender o bem daqui 8 anos, quando será consumido e que o comprador saiba que vai comprar o bem daqui 8 anos. Na verdade o que importa já esta feito e os planos de ambos estão coordenados, não faz diferença qual será o momento físico quando os agentes pegam o bem na mão para trocar, mas o que importa é o momento em que os planos de compra e venda se coordenem.


[3] Podemos tentar explicar o fenômeno de fluxos de trocas de várias formas. A forma mais simples é assumir que existem custos marginais de transação crescentes quando se realizam várias transações num período curto de tempo. Dessa forma o agente tende a distribuir as transações ao longo do tempo para minimizar os custos de transação, só encomendando/comprando o bem quando vai consumi-lo logo em seguida. Mas esse tipo de análise sofre de sérios problemas. Em primeiro lugar, é um modelo totalmente ad hoc: Se a teoria não se encaixa na realidade se assume uma coisa para encaixar a teoria na realidade que não tem nenhuma base dentro da estrutura teórica do paradigma e esse tipo de fenômeno (custos de transação crescentes) falha em capturar a essência do problema: Se um vendedor que iria vender algo hoje para ser consumido daqui a dez anos (ou seja, venderia por encomenda) escolhe realizar a transação (que já está planejada e coordenada com os planos do comprador de antemão) no futuro, daqui uns 3-4 anos, digamos, para reduzir os custos de papelada tudo no mesmo dia, eles não estão postergando a data da transação real, que ocorre quando os dois agentes decidem realizar a transação. Estão apenas transferindo a data da transferência física do título. Então explicar a existência de fluxos de transação se deve analisar não estados de equilíbrio, mas sim processos, já que fluxos de transação ocorrem em processos equilibrativos.


[4] Outra explicação mais elaborada desenvolvida por Franklin Fischer é a seguinte: Os agentes estão cientes de que os preços em que os bens podem ser transacionados mudam ao longo do tempo em situações de desequilíbrio, então eles vão comprar quando o preço é percebido pelo agente como relativamente baixo e o bem será vendido quando o preço é percebido como relativamente alto. Logo as transações são distribuídas ao longo do tempo segundo as expectativas de cada agente. Mas para que as expectativas dos agentes sejam realizadas as transações devem ser completadas com sucesso, isso significa que para que um agente que pensa que o preço vai cair venda algo, outro agente que pensa que o preço vai subir deva estar disposto a comprar a mercadoria. Isso significa que pelo menos um dos dois agentes vai estar errado. No equilíbrio, onde as expectativas dos agentes se mostram corretas e as expectativas de todos os agentes são consistentes, o preço não varia ao longo do tempo, o que significa que não existe motivo para deixar de comprar/vender algo no presente. Isso estabelece a ligação entre o conceito de equilíbrio e a distribuição das transações ao longo do tempo. Os preços são estáveis no equilíbrio porque se os planos dos agentes são consistentes, então ninguém vai vender algo porque pensa que o preço vai cair para alguem que pensa que o preço vai subir, só se todos os agentes pensarem que os preços não vão se mexer que seus planos estarão consistentes. Não é possível termos expectativas consistentes se todos os agentes pensarem que os preços vão subir e todos comprarem hoje para vender no futuro se ninguém vai estar disposto a vender, ninguem vai conseguir comprar nada e seus planos serão frustrados. O próprio movimento dos preços ao longo do tempo é explicado na teoria como resultado das expectativas divergentes.


[5] O modelo do Fisher é realmente muito poderoso e contém uma grande dose de verdade, só que ele tem vários problemas o que significa que ele não é uma explicação satisfatória para a existência de transações distribuidas ao longo do tempo. O maior problema desse modelo é o tratamento dos preços como algo externo aos agentes, só que os preços não são externos aos agentes, eles são produto da ações que os agentes realizam. Os agentes não esperam os preços mudarem, os agentes fazem ofertas para outros agentes em preços que eles determinam. Empreendedores puros não compram quando o preço está baixo e vendem quando o preço está alto, eles compram de alguém por um preço diferente do que vendem para outra pessoa. No dia a dia dos grandes mercados (como os mercados do sistema financeiro) os empreendedores tomam os preços como dado porque eles dependem das ações de tantas mentes simultaneamente que cada mente empreendedora age a partir de suas expectativas da dinâmica de ajustamento das expectativas dos outros agentes, ao invés de simplesmente descobrir uma possibilidade de lucro percebendo preferências e possibilidade de troca. O empreendedorismo em mercados de ações e similares então se desloca para um degrau abaixo, ao invés de “fazer” os preços diretamente, o empreendedor antecipa os preços que serão produzidos pela ação de milhares de agentes. Um modelo econômico que explica satisfatoriamente a ocorrência de transações ao longo do tempo (além do próprio processo de mercado) deve partir de uma análise mais fundamental do problema.


[6] Outro problema do modelo do Fisher é que ele assume que não existem surpresas positivas, ou os planos de cada agente estão corretos desde o início ou estão errados e levam a descoberta pela frustração de expectativas excessivamente otimistas. Logo o modelo dele não trata das 2 dimensões do problema do conhecimento, mas apenas uma que é justamente a mais simples das duas. O problema é que as transações recebem seu gatilho inicial no processo onde os agentes se deparam com surpresas positivas: É uma surpresa positiva o momento da descoberta da possibilidade de uma transação que vai melhorar o estado de satisfação do agente. No modelo do Fisher todas as transações que serão e podem ser realizadas são realizadas no tempo 0, quando os agentes fazem seus planos de ação para todo tempo futuro, que depois serão revisados a partir de suas conseqüências, mas o processo de revisão é sempre negativo: o agente só descobre que não consegue realizar transações, nunca descobre a possibilidade de troca nova. Então todas as trocas que serão realizadas já estão essencialmente contidas no tempo 0 do modelo dele.


[7] A explicação definitiva e satisfatória para o fenômeno é a existência do processo de descoberta espontânea (descoberta espontânea é a aquisição de informação não antecipada pelo agente) que ocorre ao longo do tempo e determina a ocorrência de transações e sua distribuição ao longo do tempo. Na teoria austríaca moderna a análise começa com uma situação sem preços, porque nenhuma transação foi realizada anteriormente. Os agentes só vão agir com base em expectativas de preços para realizar transações se eles tem expectativa de que seja possível realizar essas transações. E como essas expectativas de preço normalmente são determinadas pela existência de transações no passado recente cujos preços servem de base para o planejamento de transações no futuro se começarmos do zero, onde cada agente está completamente isolado, temos que explicar como que os agentes vão começar a ter expectativa de realizar transações no futuro. Segundo Kirzner cada agente é dotado da característica de estar alerta num certo e limitado grau a estrutura de meios e fins com os quais se defronta, com a passagem do tempo os agentes tendem a descobrir essa estrutura, e nela está incluso tudo o que é relevante para suas escolhas. A ação humana ocorre quando o agente faz uma descoberta positiva o que o leva a mudar seu plano de ação para ficar num estado mais satisfatório, a ação humana essencial do mercado é a troca, que ocorre quando o agente descobre a possibilidade de troca e faz uma oferta para outro agente, se as expectativas do primeiro em relação as preferências, dotação e expectativa do segundo estão suficientemente corretas para a formulação de um plano de ação de sucesso a oferta é aceita pelo segundo agente e a troca é realizada.


[8] As lojas de bens de consumo final são um bom exemplo de um processo de troca onde temos um fluxo de transações gerados por um fluxo de descoberta espontânea. Digamos uma loja num shopping, essa loja recebe milhares de consumidores diariamente. Os consumidores estão cientes de que eles vão descobrir possibilidades de troca que no presente eles não tem idéia de que existem. Isso pode ser chamado de consciência de desequilíbrio. E essa combinação de escolha com base num framework determinado de meios e fins com a descoberta espontânea é uma característica que se manifesta a todo momento. Primeiro quando o consumidor decide ir para o shopping ele não sabe o que ele exatamente vai fazer lá dentro, e ele sabe disso, se colocando nessa situação com o propósito de descobrir coisas que estão além de sua percepção presente. Ele não sabe qual loja ele vai entrar quando for para o shopping se ele entrar em alguma, e dentro da loja ele não sabe o que vai comprar. Essas situações com elementos não antecipados ocorrem justamente porque o agente quer induzir esses elementos que ele não consegue antecipar. Ou seja a vida real é uma combinação quase simbiótica de escolha proposital com descobertas espontâneas. Os processos de troca ocorrem devido as descobertas espontâneas levarem os agentes a agirem, e numa sociedade de mercado ofertas de trocas são o modo padrão de ação. Nos modelos que assumem o equilíbrio toda a descoberta espontânea é feita num ponto do tempo infinitesimal, os agentes estão num estado de alerta ilimitado, e por isso todas as possibilidades de troca são realizadas no tempo 0.

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