26 de abril de 2009

Ensaio - Porque a EA não é mainstream?

Porque os insights da moderna escola austríaca não conseguiram mudar a profissão?

[1] Qualquer um que estude o trabalho de economistas como Mises, Hayek e Kirzner não pode deixar de compreender as diferenças do trabalho deles com a visão do mainstream em relação à teoria da escolha racional. Também se deve perceber que as contribuições desses pensadores à estrutura da teoria econômica são notáveis e que a percepção dos economistas em relação a uma gama de fenômenos econômicos seria profundamente alterada se eles tivessem conhecimento desses insights. Mas atualmente poucos economistas foram influenciados por Mises e Hayek, e a maioria apenas conhece o trabalho deles de forma superficial. Praticamente ninguém conhece Mises. Já Hayek é conhecido basicamente como um filósofo político, cujas teorias de ordem espontânea e evolucionismo social são admiradas, mas logo que o economista planeja qualquer política econômica ou faz qualquer modelo, Hayek simplesmente some de sua mente.

A perspectiva histórica

[2] O trabalho da EA moderna nada mais é do que uma continuação (ou progressão) lógica dos marginalistas. Tanto que entre 1870 e 1930, os economistas da EA estavam firmemente dentro do mainstream, e todo o mainstream era basicamente uma única teoria, embora fosse articulada através de métodos diferentes por economistas de tradições diferentes. Nas décadas de 30 e 40, Mises e Hayek desenvolveram a teoria econômica a partir do ponto em que estava em 1930, aprofundando as implicações do subjetivismo ao explicar os processos de ajustamento em desequilíbrio que a teoria ainda não havia conseguido lidar com sucesso antes da década de 30. Nas décadas de 50,60 e 70, seus seguidores desenvolveram seus insights e montaram a escola austríaca moderna.

[3] Enquanto Mises e Hayek estavam trabalhando para aprofundar o paradigma subjetivista, o resto da profissão estava se tornando cada vez menos subjetivista. Embora os princípios básicos do valor subjetivo tivessem sido formalizados, o resultado foi a perda da “essência” de muitos insights que o economista médio na década de 20 conhecia. Durante esse período a teoria econômica praticada pela elite da profissão se tornou cada vez mais matemática: Em 1930, apenas 25% dos artigos publicados nos principais jornais acadêmicos da profissão continham equações, já em 1980, mais de 80% dos artigos eram exposições de modelos. No início do século XX um economista era um indivíduo que entendia o funcionamento do mercado a partir das ações que os indivíduos executavam a partir de seus julgamentos de valor, no final do século, havia se transformado num matemático que fazia regressões a partir de dados estatísticos.

[4] Durante esse período de mudança a escola austríaca passou de uma das subcorrentes de maior importância dentro do mainstream na teoria econômica para uma escola isolada e confinada a um número restrito de praticantes. A razão disso é que no final do século a ciência econômica é praticada a partir de três perspectivas diferentes: A teoria microeconômica, a teoria macroeconômica e o método de indução de dados para testar teorias a partir da matemática estatística.

As razões para a marginalização da EA:

[5] A teoria austríaca é baseada no individualismo metodológico assim como a teoria padrão. Mas existem diferenças significativas no grau de rigor com que esse princípio é aplicado pelos economistas das duas tradições. Para o economista tradicional o individualismo metodológico consiste apenas da fotografia que o indivíduo deixa de suas preferências quando é imputado no modelo. Já para o economista austríaco o individualismo metodológico consiste num método de análise completamente voltado à percepção subjetiva que cada indivíduo têm de sua situação. A partir desse método de análise os conceitos macroeconômicos perdem grande parte de sua validade e poder explicativo. Isso implica no isolamento da teoria austríaca com relação à macroeconomia moderna.

[6] Dentro desse método de análise também temos o subjetivismo de valor. Para o economista austríaco o subjetivismo não existe apenas para as preferências, mas também com relação às expectativas. Como tudo o que a ciência econômica estuda é subjetivo, não podemos observar diretamente os fenômenos econômicos já que eles existem dentro da mente dos indivíduos. Podemos observar suas manifestações indiretas no universo físico, mas só poderemos compreendê-las a partir da perspectiva subjetiva dos indivíduos. Como é impossível fazer estudos estatísticos desse tipo de fenômeno, o economista austríaco precisa descartar os métodos estatísticos em seu trabalho.

[7] Isolado de dois dos três pilares da teoria econômica padrão, o economista austríaco se encontra numa posição delicada. O terceiro pilar (a teoria microeconômica, baseada na dedução axiomática dada preferências subjetivas e ação racional) é o único que o economista austríaco pode se apoiar. Do ponto de vista da teoria austríaca a teoria microeconômica básica está correta, mas está incompleta. Ela está incompleta no sentido que qualquer análise micro deve começar a partir de um quadro de meios e fins dados para o tomador de decisão. O processo de formação da percepção desse quadro de meios e fins com que o tomador de decisão se defronta não pode ser computado a partir dos dados iniciais do modelo. Isso significa que os processos econômicos não podem ser formalizados matematicamente por razões epistemológicas. A teoria padrão mesmo assim tentou formalizar processos através da adição de hipóteses ad hoc, mas elas são insatisfatórias porque os agentes não são racionais nesse tipo de modelo. É possível utilizar modelos matemáticos em processos dinâmicos apenas quando violamos os princípios do individualismo metodológico e do subjetivismo. Por exemplo, quando se trata o sistema econômico como um sistema mecânico que pode “crescer”, ficar “aquecido”, etc.

[8] Podemos então determinar que a teoria austríaca moderna não resultou numa revolução da prática da teoria econômica devido a seus princípios metodológicos diferenciados e seu foco na análise de processos em desequilíbrio, um foco que não pode ser perseguido por uma ciência limitada pelo utilização de modelos matemáticos. Atualmente não temos nenhuma perspectiva que as bases metodológicas da ciência econômica venham a mudar e tender na direção da EA. A perspectiva é de que a EA venha a continuar sendo uma escola de pensamento pequena pelas próximas décadas.

4 comentários:

Juliano Torres disse...

Rafael, você está escrevendo cada dia melhor. Esse artigo ficou perfeito.

Rafael Guthmann disse...

É que agora eu estou lendo os parágafos depois que os escrevo.

Rafael Hotz disse...

você esqueceu de um quarto motivo: economistas da EA são ou miniarquistas ou anarquistas, enquanto o mainstream é governista...

e não acho que o mainstream incorpora o método axiomático que nem a EA... o positivismo é muito forte no mainstream...

Rafael Guthmann disse...

Rafael. Dentro do mainstream temos sim economistas mais axiomáticos, tipo o Robert Lucas e os mais matemáticos. E temos os mais positivistas (falsificacionistas na verdade), mas não é preciso ser positista para ser do mainstream.