29 de junho de 2009

Os problemas do modelo dos salários de eficiência

Atualmente a ciência econômica se encontra numa situação crítica sob vários aspectos. Após a segunda guerra mundial ocorreu uma mudança na concepção de ciência que os tinham de si mesmos. A economia deixou de ser uma ciência lógica e filosófica da ação humana, com o objetivo de compreender a realidade econômica de um ponto de vista filosoficamente satisfatório e passou a ser uma ciência formal que tenta imitar os métodos e técnicas das ciências exatas, utilizando muita matemática, modelos formais e a estatística com o objetivo de testar teorias. Esse modo de fazer ciência, que começou em torno de 1950, teve seu auge nas décadas de 70 e 80 e hoje já está em declínio, embora é claro, ainda seja o método padrão ensinado em todas as universidades de alto nível, tem como uma de suas criações mais bizarras e paradoxais o conceito de salários de eficiência.

Eu argumento que o conceito de salários de eficiência é fundamentalmente falacioso no sentido que se propõe a explicar fenômenos de certo tipo utilizando ferramentas analíticas que foram desenvolvidas para se compreender fenômenos de outro tipo. Em outras palavras, o modelo de salários de eficiência se propõe a tratar de problemas dinâmicos se utilizando de ferramentas analíticas apropriadas para a análise estática, logo, ao abordar esses problemas por essa ótica, falha em capturar o que deve ser explicado de antemão.

O que significa salários de eficiência?

O modelo de salários de eficiência é baseado no pressuposto inicial de que os contratos são incompletos. A partir desse pressuposto se busca explicar porque que existe desemprego no mundo real, já que no modelo de equilíbrio geral não existe desemprego, e porque é comum que os empregadores pagam salários maiores para seus funcionários do que a média de mercado, o que não ocorre no modelo de equilíbrio geral onde os preços são uniformes pelo mercado.

Vamos imaginar que temos dois tipo de trabalho t1 e t2. O tipo de trabalho t1 é constituído pelo trabalho mal feito, de baixa qualidade, concentração e intensidade. O trabalho t2 é constituído pelo trabalho bem feito de alta qualidade e intensidade. No modelo de equilíbrio geral temos então dois mercados, o mercado de t1 e o mercado de t2. Os mercados de t1 e t2 se equilibram no ponto que iguala a oferta e a procura, logo, não temos excesso de oferta de trabalho do tipo t1 ou t2. A diferença é que como é mais fácil executar o trabalho t1 e como ele resulta num produto marginal inferior ao trabalho do tipo t2, os preços do t1 sempre será menor do que o preço do t2.

O modelo dos salários de eficiência então diz que os contratos são mal feitos no sentido que num contrato de venda do trabalho do tipo t2, os trabalhadores vão na verdade ofertar t1, ou seja, trabalho mal feito, travestido de t2, trabalho bem feito. Isso ocorre devido a custos de monitoramento dos trabalhadores. O empregador não sabe a um custo nulo se os trabalhadores estão mesmo ofertando t2 ou se estão ofertado t1 e dizendo que é t2. Logo temos um custo de transação e por isso, uma imperfeição nos contratos.

Assumindo que os custos de monitoramento sejam relativamente altos (o suficiente para que o monitoramento perfeito não valha a pena), então a tendência é que os trabalhadores fiquem ofertando o trabalho de tipo t1 em troca do salário do tipo t2. Mas as empresas podem se livrar disso através de salários acima da média, segundo a teoria, porque salários acima da média implicam em perda no caso da demissão: O trabalhador vai ganhar menos em outro emprego. Isso significa que mesmo com monitoramento imperfeito (logo, com apenas uma probabilidade de demissão por falsificar a venda de trabalho) se os salários da empresa estão significantemente acima da média o custo de fazer t1 se passar por t2 não vale a pena à redução do esforço.

Logo, o modelo chega à conclusão que a estratégia ótima por parte das firmas é oferecer salários mais elevados para comprar o trabalho do tipo t2 do que os salários médios de mercado. Só que com salários mais elevados os trabalhadores vão ofertar mais trabalho e as firmas vão demandar menos trabalho! E essa situação corresponde a um equilíbrio: Logo, se temos custos de formulação de contratos temos um equilíbrio que não corresponde ao equilíbrio walrasiano, que iguala a oferta e a procura e por isso temos desemprego, no sentido que temos discrepância entre a quantidade ofertada de trabalho e a quantidade demandada, onde no caso, a primeira excede a segunda. Até aqui tudo bem. Mas existe um pequeno problema com esse modelo: Ele é uma merda.

Problemas internos ao modelo

Esse modelo contém sérios problemas internos. O leitor atento já deve ter notado um já está aparente na minha exposição. No caso, se a estratégia ótima por parte das firmas é oferecer um salário acima da média do mercado, se todas elas fizerem isso, bem a média do mercado sobe e as firmas não ganham nada ao elevar os salários. Mas nesse caso qual é o equilíbrio? O equilíbrio é não comprarem nenhuma quantidade do trabalho do tipo t2, ou seja, no equilíbrio temos um desemprego de 100% no mercado de trabalho por t2.

Isso ocorre porque assumindo um ponto inicial onde temos os salários de t2 no nível de equilíbrio walrasiano. É uma estratégia ótima por parte das firmas oferecerem um salário acima da média, e por isso demandar uma quantidade menor de trabalho. Mas então todas s firmas vão fazer isso e temos o problema de risco moral atuando novamente. Agora os trabalhadores ofertam t2 e na verdade executam t1 a um nível de salários acima do nível de equilíbrio. Mas qual a estratégia ótima por parte da firma individual nesse caso? É elevar os salários ainda mais (para bater a média), e demandar uma quantidade ainda menor de trabalho. Como é impossível com que todas as firmas executem uma estratégia ótima (ofertar salários acima da média) porque elas determinam à média, o equilíbrio só será atingido quando os salários ficarem tão altos que não vale a pena comprar nenhuma quantidade do trabalho t2. Nesse caso temos um crowding out do mercado de trabalho t2 devido a informação assimétrica com relação ao trabalho realizado. Um caso similar ao analisado pelo igualmente falacioso modelo dos carros usados do Arkelof.

Outro problema reside no fato de que o trabalhador em época de desemprego não vai ficar com medo de ser demitido se seu salário está acima da média do mercado. Ele vai ficar com medo de ser demitido se seu salário está acima de zero. Pois se for demitido e tivermos desemprego, então ele vai permanecer desempregado, caso não ocorra demissões em massa devido à moral hazard e contratações em massa de quem estava desempregado. Logo, a partir de uma situação inicial de equilíbrio walrasiano não temos um equilíbrio devido à moral hazard. E para se livrar do moral hazard os salários se elevam acima do nível de equilíbrio walrasiano. Só que acima do nível do equilíbrio walrasiano temos desemprego e a estratégia ótima das empresas é oferecerem salários menores, porque salários baixos são muito melhores do que ficar desempregado. Mas então voltamos ao equilíbrio walrasiano, só que no equilíbrio walrasiano não temos desemprego e por isso, temos desequilíbrio. Logo: O equilíbrio não existe no modelo se admitirmos que o trabalhador pode ficar desempregado se for demitido.

O real problema do modelo

Mas esses probleminhas não passam de aspectos mal resolvidos do joguinho matemático existente dentro dos pressupostos do modelo. O problema não é essencialmente esse: O problema é que o modelo tenta explicar a existência de desemprego como resultado de um processo de ajustamento. Mas o desemprego não é resultado de nenhum processo de ajustamento pela sua própria definição. O desemprego é um processo de ajustamento. Quando temos desemprego? Pela definição clássica do termo “desemprego”, temos desemprego quando os trabalhadores traçam um plano de oferta de trabalho e esperam que esse plano resulte na compra do trabalho que foi ofertado. Se o trabalho não é adquirido, então os trabalhadores revisam suas expectativas e reformulam seu plano de oferta. Em outras palavras, temos desemprego quando o processo de ajustamento de desequilíbrio ainda não se completou.

E quando temos dispersão dos preços? Pela mesma razão: Os preços de um mesmo bem comercializado no mercado são diferentes devido ao fato de que os agentes ainda não descobriram todas as oportunidades de ganho existentes. Por exemplo, se alguém vende algo por 10 e existe outro alguém comprando a mesma coisa por 15, então ambos não estão traçando planos inconsistentes com o equilíbrio. Na verdade tanto o desemprego quando a dispersão de preços são fenômenos naturais do mercado em desequilíbrio, que tendem a desaparecer em função do tempo.

O que o modelo de salários de eficiência efetivamente pode dizer é que se existem custos de transação devido a custos de formulação de contratos e monitoramento, então certas transações que ocorreriam num equilíbrio walrasiano sem custos de transação deixam de ocorrer no equilíbrio com custos de transação. Isso não significa que temos desemprego e dispersão de preços no equilíbrio. Em primeiro lugar, se um trabalhador X está disposto a trabalhar por 200 e os consumidores estão dispostos a pagar 250 pelo produto do trabalho do trabalhador X, mas o custo de transação em contratar o trabalhador é de 100. Então no equilíbrio o trabalhador X deixa de ser contratado. Mas isso não significa que o trabalhador X está desempregado, significa que o trabalhador X está inativo. O desemprego ocorre quando o plano de oferta de trabalho falha. E esse plano pode falhar mesmo que exista a possibilidade de emprego, no caso, se o trabalhador X vale até 250, se ele oferecer seu trabalho por 300 mesmo que seu salário reserva seja de 200, então ele tenderá a não ser contratado por 300. Mas no equilíbrio ele vai trabalhar porque existe uma oportunidade de ganho liquido em trabalhar. Na situação reversa podemos ter o caso de um trabalhador cujo salário reserva é de 300 e sua produtividade marginal é de 250, sabendo disso ele não vai ofertar seu trabalho e não ficará desempregado involuntariamente. Resumindo: Desemprego e a impossibilidade de realizar transações mutuamente benéficas devido a custos de transação são conceitos estritamente diferentes.

Uma situação análoga ocorre com a dispersão de preços: Se temos preços diferentes em locais diferentes devido a custos de transporte, ou se temos preços diferentes por um trabalho t2 com garantia de ser t2 em relação a um trabalho t2 que pode ser na verdade t1, na verdade temos preços diferentes por bens diferentes. Preços dispersos são preços diferentes por bens iguais! Ou seja, o agente compra X por 5 e poderia comprar por 3 mas não compra, e estou assumindo que o custo da informação com relação as ofertas no mercado seja zero! Logo, o agente só vai pagar mais por algo que pode pagar menos se estamos em desequilíbrio, porque não é uma estratégia ótima.

Como podemos analisar desemprego e dispersão de preços? Através do uso de ferramentas analíticas adequadas para a análise de processos em desequilíbrio. Modelos de equilíbrio como esse não são úteis ou mesmo relevantes e apenas demonstram a ignorância de seu criador com relação à natureza dos problemas com que ele precisa lidar.

Edit: O que podemos salvar dos destroços do modelo dos salários de eficiência se resume no fato de que existem custos de transação para a venda de trabalho de qualidade superior. Logo isso significa que o volume de emprego de trabalho de qualidade superior é menor do que seria no caso da inexistência desses custos de transação. Mas isso não significa que temos desemprego, ou seja, uma discrepância entre os planos de oferta de trabalho e os planos de procura por trabalho, da força de trabalho, apenas que certos tipos de transações mutuamente benéficas não podem ser realizados porque o custo de executá-los é maior do que os ganhos líquidos derivados de sua execução.

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