31 de julho de 2009

Mitos sobre história econômica

(O post menos relacionado com a teoria austriaca que já coloquei no blog!)

Existem muitos mitos com relação as condições econômicas das sociedades históricas. Vou derrubar alguns dos mais comuns nesse post:

Mito 1 - As condições de vida dos trabalhadores.

Mito: Os trabalhadores europeus e americanos ganhavam mal e tinham condições de trabalho deploraveís, trabalhando 12, 14 até 16 horas por dia, e isso ocorreu até as primeiras décadas do século XX. Apenas nas décadas de 30 e 40, com a implantação de leis trabalhistas que a situação melhorou.

Verdade: As condições de trabalho foram melhorando gradualmente. Na verdade, no caso da Inglaterra, a partir do final do século XVIII que podemos perceber uma tendência de melhora nas condições de trabalho. Em torno de 1780 era comum a jornada de trabalho entre 70 e 80 horas por semana na Inglaterra, mas a jornada de trabalho diária média nunca chegou a 14 horas por dia. Nessa época ela consistia em 12 horas por dia, 6 dias por semana.

Com o aumento da produtividade devido ao progresso econômico gerado pelo aprofundamento da estrutural de capital e da atuação de empreendedores alertas, os trabalhadores passaram a ganhar um salário maior por hora. Com salários maiores a utilidade marginal da renda obtida no trabalho se reduziu e mais horas foram alocadas para o lazer. O que resultou na redução da jornada de trabalho.

A redução da jornada foi rápida: Entre 1780 e 1860 a jornada semanal caiu de 70-80 horas para 45-55 horas. Ou seja, caiu de 12 horas por dia 6 dias por semana, para cerca de 8 horas por dia, 6 dias por semana. E chegou ao seu padrão de 40 horas por semana na década de 1880.

Mito 2 - A renda per capita do Reino Unido cresceu mais no século XX do que no século XIX.

Mito: Entre 1820 e 1910 a renda per capita do Reino Unido, durante um periodo liberal, cresceu menos do que na era intervencionista, que compreende o periodo entre 1910 e 2000. As estimativas dizem que a renda per capita em 1820 era de 1.700 dólares (PPC de 1990), passou para 4.900 dólares em 1910 e no ano 2000 para 20.000 dólares. Crescimento do periodo liberal foi de aproximadamente 190% e do periodo intervencionista, 310%, ambos os periodos têm 90 anos de duração. Uma evidência empírica de que o intervencionismo gera mais crescimento econômico.

Verdade: Antes da década de 1940 não existia contabilidade nacional no Reino Unido. Qualquer estimativa de crescimento antes desse década é baseada em dados circunstanciais de pouco rigor. Além disso, não é possível medir o progresso econômico de uma socidade usando apenas um número. O indicador de renda per capita mostra muita coisa, mas quanto maior o horizonte de tempo envolvido na comparação, menos útil ele se torna.

Um indicador objetivo é o consumo de energia per capita. Sabemos com precisão qual era o consumo de energia do Reino Unido desde 1820 em toneladas equivalentes de petróleo. Primeiro porque é um valor físico real que pode ser medido com rigor, diferentemente da renda per capita, que é um valor subjetivo no longo prazo. Segundo, existem estatísticas precisas da produção de carvão e outros recursos energéticos desde o início do século XIX. Embora não seja um indicador perfeito, é um ótimo indicador para determinar periodos de rápido crescimento econômico e industrialização.

Então, qual era o consumo de energia per capita do Reino Unido nas datas consideradas? Em 1820 era de 0,63 toneladas de petróleo equivalentes, em 1910, era de 3,24 toneladas de petróleo equivalentes e em 2000 chegou a 3,92 toneladas de petróleo equivalentes. Um crescimento de mais de 410% no período liberal e 21% no período intervencionista. A vantagem empírica mudou um pouco, não?

Mito 3 - O tamanho de Tenochtitlán, a capital do "império Azteca".

Mito: A capital dos aztecas era maior do que qualquer cidade da europa no ínicio do século XVI, contando com centenas de milhares de habitantes (geralmente falam em 300.000-500.000).

Verdade: É muito comum para os historiadores exagerarem o tamanho de cidades pré industriais. O caso mais comum é exagerar o tamanho das cidades da américa pré colombiana, particularmente de Tenochtitlán. Por todos os lados se encontram afirmações de cidades antigas com "mais de 1 milhão de habitantes", principalmente em documentários ou em livros publicados por historiadores com poucas noções de estatística e economia.

Na verdade, antes da era do "capitalismo moderno" as cidades com mais de 100 mil habitantes eram raríssimas. Temos estimativas confiaveís com relação ao tamanho das cidades européias a partir do final da Idade Média. Em 1500 a Europa já era a região mais desenvolvida do planeta, e por causa disso, era também a região mais urbanizada. A urbanização ocorre com o desenvolvimento econômico porque com o crescimento do poder de compra dos indivíduos uma parcela menor dos gastos é alocada na compra de alimentos, e numa socidade com uma estrutura de capital complexa, apenas uma fracção da demanda por alimentos se traduz em demanda por trabalho agrícola.

Qual era o tamanho das cidades européias na época que os espanhois chegaram em Tenochtitlán? A maior, Paris, tinha uma população entre 160 mil habitantes e 200 mil. Existiam mais duas ou três cidades com mais de 100 mil habitantes. Para sustentar cidades desse porte é nescessária tecnologia para produzir e transportar alimentos em grande escala. E os europeus já possuiam tecnologias como a roda, navios de transporte, rotação de culturas e o arado pesado, que permitiam produzir alimentos suficientes para sustentar cidades "imensas" de mais de 100 mil habitantes. Na américa pré colombiana não existiam animais de tração decentes, tecnologia agrícola sofisticada e ainda não tinham inventado a roda, logo, manter cidades com mais de 100 mil habitantes era tecnicamente impossível. Tenochtitlán deveria ter menos de 50 mil habitantes, considerando os relatos dos espanhois de que seria tão impressionante quando as maiores cidades da Espanha na época (que tinham 40 mil habitantes).

Mito 4 - A China sempre foi uma potência econômica.

Mito: No período de mais de 2 mil anos, a partir a dinastia Han (que começou a governar no final do século 3 a.c.) até o século XIX, a China foi a região mais desenvolvida do planeta. Excedendo o desenvolvimento econômico do ocidente por largas margens.

Verdade: Em termos de desenvolvimento econômico a China sempre foi miserável. Em termos de produto total da civilização chinesa, era realmente muito grande porque desde o século V a China é o estado mais populoso do mundo. Mas em termos de desenvolvimento per capita, ou seja, produtividade e bem estar da população, a China sempre esteve abaixo do ocidente, com a possivel exceção do périodo entre os séculos VII e IX.

Uma evidência empirica forte, mas só valida para o século XVIII: Segundo Adam Smith, na década de 1770 a grama de prata tinha cerca do dobro do poder de compra na China do que no Reino Unido. Os salários em termos de prata no Reino Unido na época eram de cerca de 12 gramas por dia e na China eram de 1,4 gramas por dia. Em outras palavras, os trabalhadores ingleses do início da revolução industrial recebiam cerca de 6 vezes mais em termos reais do que os trabalhadores chineses.

Um citação do dito cujo:

"China
has been long one of the richest, that is, one of the most fertile, best cultivated, most industrious, and most populous countries in the world. It seems, however, to have been long stationary. Marco Polo, who visited it more than five hundred years ago, describes its cultivation, industry, and populousness, almost in the same terms in which they are described by travellers in the present times. It had perhaps, even long before his time, acquired that full complement of riches which the nature of its laws and institutions permits it to acquire. The accounts of all travellers, inconsistent in many other respects, agree in the low wages of labour, and in the difficulty which a labourer finds in bringing up a family in China. If by digging the ground a whole day he can get what will purchase a small quantity of rice in the evening, he is contented. The condition of artificers is, if possible, still worse. Instead of waiting indolently in their work-houses, for the calls of their customers, as in Europe, they are continually running about the streets with the tools of their respective trades, offering their service, and as it were begging employment. The poverty of the lower ranks of people in China far surpasses that of the most beggarly nations in Europe."

Isso acaba com as chances da China estar próxima do nível de desenvolvimento da europa nos séculos XVII e XVIII. E tambem mostra que o país está muito próximo do nível de subsistência, e que é economicamente estável há séculos. Logo, qualquer civilização que tenha ultrapassado significativamente o nível mínimo de subsistência, como os gregos clássicos e os europeus da época de Adam Smith, é economicamente mais avançada do que a China pré 1978!

5 comentários:

Petrucchio disse...

Coloca a fonte pra não dar margem pra marxista falar abobrinha! :)

Rafael Guthmann disse...

fonte? é um monte de dados que eu tirei de memória.

Lucas Mendes disse...

Oi Rafael. Tudo bem? Parabéns pelo post, especialmente sobre a situação dos trabalhadores na era industrial. Porém, como não há um acordo comum sobre a veracidade dos dados, convém citar fontes.

Abraço
Lucas

Rafael Guthmann disse...

Olá, mas eu não me lembro bem as fontes. Se me lembrasse bem eu citaria. No caso da situação dos trabalhadores, esses dados foram compostos por vários artigos que me lembro de ter lido.

Juliana F Duarte disse...

Fora a referência à fonte, gostei do que li! Principalmente se levar em consideração minhas parcas noções de economia.
Valeu!