28 de abril de 2010

Empreendedorismo, crescimento econômico e o caso da URSS

(1) A importância do empreendedorismo para o progresso econômico não pode ser negada, embora houveram inúmeras tentativas de se gerar crescimento econômico com ausência de atividade empreendedora, todas falharam a longo prazo. O caso mais interessante é o da URSS, que oficialmente tinha enormes taxas de crescimento nas décadas de 1930, 1950 e 1960, mas a partir de meados da década de 1970 estagnou e finalmente entrou em colapso em 1991. Vou mostrar que o caso da união soviética representa um caso modelo para explicar a relação entre empreendedorismo e crescimento econômico, além de mostrar as conseqüências do socialismo parcial sobre um sistema econômico.

Fundamentando o crescimento econômico

(2) O processo de crescimento econômico é resultado da combinação de dois fatores: O crescimento da quantidade de fatores de produção investidos e o crescimento da produtividade total dos fatores, ou seja, da eficiência com que os fatores de produção são transformados em produto. Para os países industrializados o segundo fator é o mais importante determinante do crescimento da renda per capita.

(3) O aumento da quantidade de fatores investidos no sistema econômico é primariamente determinado pelo tamanho da força de trabalho, suas preferências com relação ao trabalho ou lazer e pela acumulação de capital. Atualmente os recursos naturais não têm quase nenhuma relevância para determinar o produto da maior parte dos países. Para aumentar a renda per capita via acumulação dos fatores é necessário acumular capital.

(4) O problema é que dado uma quantidade de trabalho, a acumulação de mais capital terá como conseqüência a redução da produtividade marginal do capital. Essa redução da produtividade leva a uma redução no crescimento da renda per capita via acumulação de capital, e é uma das razões que explicam porque os países mais pobres tendem a crescer mais rápido do que os países desenvolvidos. Os bens de capital se desgastam, logo, é necessário repor o estoque depreciado, como a produtividade marginal do capital caí com a acumulação, enquanto que sua taxa de depreciação é fixa, chega uma hora aonde que a renda per capita não pode ser elevada via acumulação de capital. Esse é o famoso estado estacionário no modelo de Solow.

(5) Para elevar a produtividade do trabalho no longo prazo é necessário elevar a produtividade total dos fatores. Esse é um dilema para a teoria convencional, que se utiliza de várias ferramentas para tentar explicar o resíduo de Solow. Uma ferramenta muito usada é assumir que existem dois tipos de acumulação de capital, acumulação de capital físico e capital humano. Assim sendo, assumimos que a produtividade marginal do capital humano não caí com sua acumulação, gerando crescimento de longo prazo. Essa explicação é deficitária pois equivale a assumir que o problema não existe ao invés de explicá-lo, além de gerar paradigmas lógicos com a teoria da produção: Se fosse possível elevar o produto indefinidamente somente com a acumulação de capital humano, os outros fatores de produção não teriam razão de existir. A explicação para o resíduo de Solow não está na acumulação de nenhum fator de produção, mas na redução da ineficiência.

(6) A melhor explicação para o aumento da produtividade total dos fatores emerge a partir do trabalho de Kirzner: Esse processo ocorre via o aprendizado dos agentes em utilizar os recursos disponíveis de forma mais eficiente. Esse processo de aprendizado é um processo de descoberta e se realiza via ação de empreendedores, ao comprar por preços mais baixos e vender por preços mais altos, realocam os fatores de forma mais eficiente, elevando sua produtividade total. Para se elevar a produtividade total dos fatores se deve utilizar a divisão intelectual do trabalho proporcionada pelo sistema de preços e pela atividade empreendedora. Em outras palavras, o sistema de preços eleva a produtividade total dos fatores ao utilizar as descobertas de milhões de mentes via a exploração de oportunidades de lucro.

(7) Isso ajuda a explicar porque que existe crescimento de longo prazo: os empreendedores estão sempre descobrindo novas formas de organizar os fatores, elevando sua produtividade. Como o processo de descoberta não é fruto da ação consciente dos agentes, não existe tendência para termos retornos decrescentes de descobertas. Como? Os retornos decrescentes operam porque o agente racional sempre vai utilizar seus meios adicionais para seu uso mais urgente, a adição marginal de meios reduz seu benefício marginal. Já no caso da descoberta retornos marginais decrescentes não ocorrem porque o agente não escolhe o que ele vai descobrir primeiro, ou seja, ele não aloca suas descobertas.

O caso da União Soviética

(8) O caso da URSS é um exemplo da impossibilidade de se gerar crescimento de longo prazo através da “força bruta” da acumulação de capital, o caminho que o Brasil também tentou na época do nacional desenvolvimentismo. Fundada em 1917, sobre as ruínas do Império Russo, a URSS adotou o socialismo puro nos seus primeiros quatro anos de existência (1917-21), com conseqüências desastrosas para o país. Foi à experiência mais próxima do socialismo que a humanidade já teve, o dinheiro foi abolido, os juros, a propriedade privada de qualquer empreendimento com mais de cinco funcionários e a propriedade da terra. O link de um artigo do Boettke explicando esse fenômeno para os mais interessados: http://www.paulbogdanor.com/left/soviet/boettke1.pdf.

(9) Este não é o caso que tratamos aqui. Após essa experiência desastrosa, a URSS adotou um sistema econômico aonde que apenas os grandes empreendimentos industriais seriam estatais e aboliu qualquer tipo de inovação financeira em larga escala. Embora não fosse socialismo propriamente dito, mas uma versão radical do “capitalismo nacional desenvolvimentista” praticado em sua forma mais branda na América Latina, onde que o Estado gera o desenvolvimento através de gigantes estatais do petróleo, energia, aço, maquinário, automobilística, etc. Sua prática na União Soviética acabou por gerar altas taxas de crescimento da produção de commodities industriais, como aço, carvão, energia elétrica e petróleo nas décadas de 1930, 1950 e 1960. Na década de 1970 o processo se desacelerou e por volta de 1985, a produção de commodities físicas parou de crescer. Mas sob vários outros aspectos a URSS estava numa situação pior no início da década de 80 do que em 1965, quando a expectativa de vida era mais alta: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d4/Russian_male_and_female_life_expectancy.PNG . Na verdade a URSS estava em declinio econômico por pelo menos duas décadas quando ela entrou em colapso.

(10) Qual foi à causa desse declínio? Embora não fosse totalmente socialista, era dentre as grandes potências, o país mais próximo do socialismo. Como a atividade empreendedora era impossível nos maiores setores da economia, a produtividade total dos fatores não crescia e a estrutura tecnológica da economia soviética não mudou em nada durante seus 70 anos de existência: Em plena década de 80, o maior setor da economia soviética era a produção de petróleo, os setores quase obsoletos como a produção de aço ainda tinham imensa importância para a URSS, enquanto que para os EUA e a Europa Ocidental, esses setores estavam enferrujados. A falta de inovação causada pela ausência de liberdade para empreender levou a estagnação e “apodrecimento” econômico. O colapso ocorreu quando se tornou claro que o atual sistema era um labirinto sem saída.

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