20 de julho de 2010

Aplicando a teoria austriaca dos ciclos de negócios

[1] Inspirado na cadeira de história econômica do Brasil que fiz na faculdade e nas ocorrência macroeconômicas recentes dos EUA, vou falar de duas ocorrências de aplicação da teoria de ciclos desenvolvida por Wicksell, Mises e Hayek. A primeira foi a crise Americana de 2001 e suas conseqüências. O segundo caso foi o processo de crescimento e inflação do Brasil entre 1968 e 1994.

[2] A teoria asutriaca dos ciclos em uma versão ultra simplificada: O ciclo de negócios ocorre com a emissão de moeda pelo banco central. Essa emissão de moeda causa uma desproporção da demanda pelos vários bens na economia com relação as preferências dos consumidores. Essa desproporção só consegue ser mantida com o aumento na quantidade de moeda acima das expectativas de inflação dos agentes, caso contrário as expectativas de inflação vão reajustar os preços de modo a reduzir o poder de compra do estoque de moeda, o que acaba com as distorções relativas. Essas distorções causadas pela emissão de moeda podem causar problemas sérios especialmente se entrarem no sistema de crédito, levando a distorções na estrutura intertemporal de produção.

[3] Nos EUA tivemos uma bolha na década de 1990. Com taxas de crescimento infladas pela emissão de crédito. Em 2000-2001, a bolha finalmente estourou, o que levaria a uma recessão para ajustar os desequilíbrios da economia Americana. Setores deveriam ser enconlhidos para ajustar a estrutura de produção as demandas dos consumidores. Mas graças a política monetária expansionista do FED, a correção dos desequilíbrios foi evitada e a economia permaneceu desequilibrada por quase 10 anos, o que levou a baixa taxa de crescimento econômico da década de 2000 (foi de apenas 1,9% ao ano o crescimento do PIB dos EUA entre 2000 e 2009, fonte: Economagica).

[4] A crise atual representa a correção inevitável dessas distorções e suas severidade é explicada pelo tempo com que o boom econômico durou na década de 90, gerando distorções muito grandes. Quanto maior a perduração do boom, maiores serão as distorções e pior tende ser a crise. Outro caso similar ao americano foi o caso do Japão. No início da década de 90 o Japão sofreu uma crise que demarcou o fim de um boom de quase 40 anos. A crise foi muito pesada, mas o governo Japones reduziu os juros para zero, evitando a liquidação dos malinvestimentos. O resultado foi a estagnação do Japão, que continua até hoje.

[5] Uma aplicação de um aspecto da teoria austriaca dos ciclos que não é muito destacado é quando a expansão de crédito não é interrompida, mas continua indefinidamente a taxas crescentes. O que ocorre não é uma recessão mas um processo de destruição da moeda e do sistema econômico, algo muito pior do que uma recessão. Foi isso que ocorreu no Brasil entre 1968 e 1994.

[6] Para incentivar o crescimento, a didatura militar empregou um processo de expansão de crédito a partir de 1966. Segundo Gremaud, Formação Econômica do Brasil, pag. 205, o volume de crédito em relação ao PIB passou de 20% em 1966 para 44,2% em 1975. A partir daí o volume de crédito começou a se reduzir, porque a taxa de inflação superou o crescimento do volume de crédito nominal. Na verdade essas foram as conseqüências do mercado se ajustando a expansão de crédito. Mas como o governo mantinha uma política monetária expansionista e não desistia de perseguir essa política, a taxa de inflação apostou corrida com o aumento no estoque de meios de pagamento. Assim, entre 1975 e 1984, o volume de crédito em relação ao PIB passou de 44,2% para 62,8% em 1984, o que gerou o ciclo econômico do segundo PND.

[7] Após 20 anos desse processo de corrida entre o crescimento do volume de crédito nominal e a taxa de inflação, a inflação estava beirando os 80% ao mês no início da década de 90. O plano real representou em certa medida, o corte da expansão louca de crédito, o que finalmente permitiu o país ajustar sua estrutura de produção, que foi um processo longo e demorado. O crescimento só se resumiu em 2004, após quase 25 anos de estagnação, gerados por um dos mais intensos ciclos de negócios da história.

[8] Ao desenvolver a sua teoria de ciclos, Mises chegou a conclusão de que o boom só terminaria ou com uma contração de crédito e uma crise, ou com a aceleração sem fim da taxa de inflação, levando o sistema econômico a deixar de usar a moeda corrente (o que estava ocorrendo no Brasil do início da década de 80, as pessoas e empresas estavam utilizando a URV ao invés da moeda fiduciária para efetuar seus cálculos econômicos).

4 comentários:

Marcelo disse...

Rafael,
Voce sabe como foi gerada a hiperinflação da Argentina e mais recentemente do Zimbabwe?

Rafael Guthmann disse...

Bem, não estudei esses casos. Não saberia dizer. Mas suspeito que o caso de Zimbabwe não seja devido a um processo de boom, como foi o caso do Brasil. Eles não devem ter mercados de crédito desenvolvidos e uma estrutura de capital muito avançada.

Anônimo disse...

Olá Rafael.Tenho uma dúvida.

O sistema de preços permite sinalizar aos empresários onde há restrição de oferta. Isso permite que eles se adaptem, ampliando sua oferta e beneficiando, com isso, o consumidor, que terá a sua demanda atendida por preços mais baixos. Mas se o governo controla a inflação, como saber onde há restrição de oferta?

Por outro lado, se o governo não controla a inflação, isso causará um problema político, pois deixará a população insatisfeita, considerando que a adaptação dos empresários não será instantânea e os preços continuarão subindo. Qual a solução?

E, por fim, o controle de inflação não é no mínimo questionável (embora tenha a sua importância política), na medida em que restringe a demanda, cabendo a população decidir o que compra ou nao?

قمة الدقة للخدمات disse...


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